Fusão esquisita

Celso Ming

30 de junho de 2011 | 19h00

O empresário Abílio Diniz insiste em que essa megafusão entre o Grupo Pão de Açúcar, que ele preside, e o Carrefour será um negócio bom para todos. O diário Financial Times, de Londres, na sua edição de desta quinta-feira, expõe a suspeita de que os únicos ganhadores serão os advogados.

Os dois litigantes estão armados. O Grupo Casino, que acusa o Grupo Pão de Açúcar de atropelamento da lei e da ética, contratou para defender seus interesses o criminalista José Carlos Dias. E o empresário Abílio Diniz convocou o também criminalista Márcio Thomaz Bastos.

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Diniz. Público versus privado (FOTO: SERGIO CASTRO/AE)

Esse é um jogo bruto entre interesses privados, daqui e do exterior, cujo resultado está exposto a condenações na Justiça, também, daqui e do exterior. E, no entanto, vai levando o governo Dilma a tomar partido, como se se tratasse de uma questão de Estado, supostamente para evitar a desnacionalização do varejo nacional.

Sem ao menos questionar a lisura do negócio e sua legalidade (perante os organismos de Defesa da Concorrência e perante o atual acordo de acionistas), o BNDES já se dispôs a despejar quase R$ 4 bilhões em dinheiro público. A ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e o ministro do Desenvolvimento fazem a afirmação estranha de que “não há recurso público” envolvido na parada. E, no entanto, o BNDES, que trabalha com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Tesouro acaba de receber nova injeção de vitamina oficial, desta vez de R$ 50 bilhões. Se os recursos de um banco estatal como o BNDES não são públicos, que acionistas privados então o sustentam?

O ministro Fernando Pimentel, que se propõe a defender o setor produtivo, justamente o que será espremido pela nova superempresa, defende a nova armação e tenta argumentar que o BNDES apenas está no jogo porque os bancos nacionais se omitem. É um argumento de qualidade duvidosa. Em princípio, qualquer banco nacional ou estrangeiro, especialmente da França, teria especial interesse em financiar um negócio limpo e atrativo.

O empresário Abílio Diniz se empenha em envolver a bandeira nacional em mais essa encrenca pessoal, com a disparatada afirmação de que a fusão vai abrir as portas na Europa para o produto brasileiro. Só não explica por que a atual sociedade com o Grupo Casino, que agora quer alijar do negócio – um grupo tão francês e tão grande quanto o Carrefour –, não foi capaz de cumprir esse objetivo.

Não basta assegurar sinergia e eficiência. Sem concorrência, o sistema definha e a economia popular sai derrotada. Os advogados que estão costurando o novo arranjo defendem a tese de que a empresa que sairá da fusão não provocará concentração excessiva do mercado varejista. Argumentam que a nova empresa não terá mais do que 32% do mercado. E nessa conta metem o Brasil inteiro, incluindo o Acre, o Amapá e o Piauí, onde a presença do Pão de Açúcar e do Carrefour ou não existe ou é insignificante. Não levam em consideração o estrago sobre a economia popular de que o novo conglomerado será capaz de produzir no Centro-Sul – especialmente em São Paulo onde, neste ano, o setor deverá faturar perto de R$ 70 bilhões.

E, se esse negócio é tão bom para todos, falta demonstrar por que será bom para o interesse público, o único que deveria contar num país regido por princípios republicanos e democráticos.

CONFIRA

Meta de inflação. Como esperado, o Conselho Monetário Nacional manteve a meta de inflação de 4,5% para 2013. Assim, a meta anual permanece a mesma pelo nono ano seguido. Isso já define parâmetros para a inflação futura, pois a expectativa para 2013 começa a ser definida desde já. Significa que os formadores de preços começam a calibrar seu jogo para uma inflação em 2013 não inferior a 4,5%.

Realismo. Pode-se argumentar que baixar a meta não seria opção realista, porque obrigaria o Banco Central a trabalhar com margens mais estreitas, num ambiente de fortes incertezas externas. Além de sacrificar certo crescimento econômico (pois os juros teriam de ser mais altos para obter uma inflação mais baixa), uma meta inferior a 4,5% ao ano poderia tirar flexibilidade a toda política econômica.

Sem avanço. E, no entanto, apesar da crise, a inflação dos países ricos gira hoje em torno dos 2% ao ano. Desse ponto de vista, não houve avanço.