Guerra cambial

Guerra cambial

Celso Ming

21 de setembro de 2012 | 20h30

Em sua viagem durante esta semana à Europa, especialmente nos debates e nas entrevistas de que participou, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não fez outra coisa senão condenar as decisões tomadas pelos dois grandes bancos centrais do mundo, o Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, e o Banco Central Europeu (BCE), pelo despejo de mais dinheiro nos mercados por meio da recompra de títulos. Ele voltou a denunciar a “guerra cambial” deflagrada e intensificada pelos Estados Unidos e pela área do euro.

Mantega também avisou que vai continuar combatendo o que entende por excessiva valorização do real, produzida, segundo ele, pela forte entrada desses recursos, por meio de recompra de moeda estrangeira pelo Banco Central do Brasil e por meio de taxação (IOF) na entrada de capitais.

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Mantega. Moedas desalinhadas (FOTO: ERNESTO RODRIGUES/AE)

São duas as observações que se podem fazer a partir dessas reiteradas manifestações do ministro Mantega. A primeira delas é que é descabido condenar os grandes bancos centrais. Eles apenas estão tentando tirar suas economias do brejo em que se encontram. E chegaram à conclusão de que é melhor correr mais riscos, mas fazer alguma coisa para reativar o crédito e a atividade econômica, do que não fazer nada e ver a paradeira afundando as grandes economias e as emergentes.

O mundo inteiro (menos a Alemanha e o ministro Guido Mantega) está aplaudindo a atuação corajosa dos grandes bancos centrais, porque entende que o problema maior é a estagnação global e não determinados efeitos colaterais que possam vir a derrubar a competitividade das economias emergentes, sobretudo a do Brasil.

Às vezes, Mantega alega que essas operações gigantescas de emissão de moeda não servem para nada, porque não seriam capazes de reativar a economia. Mas este é um ponto de vista discutível. O próprio presidente do Fed, Ben Bernanke, vem dizendo o contrário. Ele argumenta que os resultados podem até não ser visíveis. No entanto, o que precisa ser avaliado, diz ele, é o tamanho do buraco em que estaria a economia americana se essas decisões não tivessem sido tomadas.

Isso não quer dizer que o governo brasileiro tenha de ficar parado e que não deva defender a economia de eventuais avalanches de moeda estrangeira sobre o câmbio interno – e essa é a outra observação a ser feita.

Por enquanto não há evidências de que a terceira rodada de afrouxamento quantitativo (quantitative easing[) do Fed esteja provocando novo tsunami de moeda estrangeira no câmbio interno. Mas, se isso acontecer, que venham as defesas do governo brasileiro, desde que ajudem.

Esse debate não tem a ver com o que se trava a respeito dos grandes desalinhamentos cambiais que preexistem à crise – embora estejam sendo agravados pelas políticas expansionistas dos grandes bancos centrais. Esses descompassos pulverizaram as estruturas tarifárias (Imposto de Importação) destinadas a defender os produtos nacionais contra a ação predatória dos importados. E é por isso, também, que as disputas sobre o protecionismo tarifário perderam boa parte de sua base de referência.

Mas este é o mundo desordenado de hoje que esta crise tende a agravar.

CONFIRA

O índice de analfabetismo da população com 15 anos ou mais, no Brasil, caiu de 9,7%, em 2009, para 8,6%, em 2011, apontou nesta sexta-feira a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2011, feita pelo IBGE.

Inflação em dólares. O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola advertiu nesta sexta para o potencial de inflação no Brasil gerado pela política de expansão da moeda nos Estados Unidos. Uma das mais importantes fontes de pressão inflacionária pode provir da alta das matérias-primas (commodities), todas cotadas em dólares.