Hora do investimento

Celso Ming

18 de setembro de 2012 | 20h00

Os ministros da área econômica não gostam quando alguns analistas avisam que o atual modelo de política econômica, que privilegia o consumo, já deu o que tinha de dar e que é preciso agora reforçar o investimento.

Na verdade, apesar de não gostarem de ouvir essas críticas, já começaram a manobrar nessa direção. É pouco e esse pouco continua misturado com incentivos excessivos ao consumo. As vendas ao varejo crescem substancialmente acima da produção. Em São Paulo, licenciam-se 800 veículos novos por dia. Enfileirados, correspondem ao comprimento de uma Avenida 23 de Maio. No entanto, o governo ainda insiste em dar mais isenção de IPI para a indústria de veículos.

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Dilma. Não é só dinheiro (FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS)

As grandes cidades estão emperradas em congestionamentos gigantescos. Um único acidente numa dessas pontes das marginais para tudo. A encomenda não chega, a assistência técnica fica para outro dia, as crianças passam horas enlatadas nos veículos no seu trajeto para a escola ou de volta para casa. O custo Brasil vai sendo multiplicado a olhos vistos e a paciência do público se esgotando. E não é somente São Paulo nem apenas as grandes capitais. Qualquer cidade média tem sido diariamente bloqueada pelos congestionamentos e pela falta de infraestrutura.

E se isso é assim num quadro de crescimento do PIB de meros 1,5% – como o que vai acontecer neste ano –, imagine-se o que ocorrerá caso seja confirmada a tal “velocidade de cruzeiro” com que sonha e conta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que prevê avanço econômico em torno de 4,5% ao ano já a partir dos próximos meses.

Quem tira proveito de incentivo fiscal e de favorecimentos creditícios distribuídos pelo governo para comprar um automóvel, por exemplo, tem de aceitar uma revolução no seu orçamento doméstico. Não gasta dinheiro só com carro novo. Tem ainda o IPVA, o licenciamento, o seguro, o combustível, o estacionamento, os flanelinhas…

Mas é essa a opção; essa é a política do governo Dilma. Apenas mais recentemente parece ter caído a ficha de que é necessário investir em rodovias, ferrovias, metrôs, portos, aeroportos, comunicações, energia…

Nesta terça, sem olhar só para essa moagem diária a que se submete o consumidor e observando estatísticas macroeconômicas, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto advertia, em São Paulo, não somente para o excesso de estímulos ao consumo, potencialmente geradores de inflação em 2013, mas também para “a falta de investimento, um problema grave”, por vir caindo seguidamente desde o primeiro trimestre de 2010.

O problema é que investimento não exige apenas mais dinheiro e cada vez mais dinheiro. Exige, sim, capacidade decisória – coisa que a gente não via, por exemplo, na área do petróleo, que, há quase 4 anos sem uma nova licitação, teve nova rodada anunciada nesta terça-feira, para maio de 2013 (leia mais no Confira). Exige capacidade gerencial do governo, em falta hoje, porque o PAC está empacado. Exige marcos regulatórios (regras confiáveis de jogo), que também estão emperrados, como se vê, por exemplo, nas concessões de portos e aeroportos. E exige agilidade no licenciamento ambiental, que se mantém lento e nem sempre objetivo.

E vamos parando por aqui para não parecer que esta Coluna está ranheta demais…

CONFIRA

Com uma condição. Depois de ser duramente pressionado pelos críticos e pela redução da produção de petróleo, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, anunciou nesta terça-feira as duas primeiras licitações de petróleo para maio e novembro de 2013. Mas avisou que haveria uma condição: as licitações só sairão caso seja aprovada a nova lei dos royalties.

Questão política. Fica a falsa impressão de que o Congresso trabalha permanentemente contra o governo. E, no entanto, o governo tem ampla maioria no Congresso. Se não consegue aprovar um projeto de lei é também porque está sendo incapaz de gerenciar politicamente suas bases.

Vai dar conta? As novas licitações em petróleo esbarram em um problema grave: a incapacidade da Petrobrás de tocar ao mesmo tempo tantos projetos de exploração. Se já não está dando conta do que já tem, por acaso conseguirá cuidar de mais áreas? E em quais condições?