Hotéis sem vagas

Hotéis sem vagas

Celso Ming

29 de dezembro de 2011 | 19h50

Visitantes sem reservas antecipadas em hotéis de São Paulo não têm onde ficar em dias úteis – alertou esta Coluna várias vezes. Se o setor hoteleiro não se mexer, isso tende a piorar muito durante a Copa do Mundo do Brasil.

Reservas para o período entre 12 de junho e 13 de julho de 2014 já estão sendo realizadas. Serão seis jogos na cidade, incluindo o de abertura e um dos semifinais. E perto de 300 mil turistas passarão por São Paulo – espera a São Paulo Turismo (SPTuris), que cuida de eventos apoiados pela Prefeitura.

Onde essa gente ficará é incógnita à procura de resposta. Nada tira a oferta de novos quartos de hotel em São Paulo do estado de coma. A média de ocupação paulistana saltou de 58,7%, em 2005, para 70,6%, em 2011 – como se vê no gráfico. Nesse ritmo, em 2015 passaria dos 80,0%. Desde que o País foi indicado para sede do Mundial, há cinco anos, não foi erguido um hotel sequer além dos 410 já existentes na cidade. Apesar de pequeno aumento de vagas que possa ocorrer, é improvável que o quadro geral mude em dois anos e meio, até a Copa.

No entanto, o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb), que defende interesses do empresariado do setor, garante ter tudo sob controle. Aposta em que a competição, por si só, esvaziará a agenda de turismo de negócios paulistana (congressos, conferências, fechamento de contratos atraem 70% dos 12 milhões que visitam a cidade ano a ano). Assim, argumentam, sobrarão vagas para os torcedores que desembarcarão por aqui.

Mario Albuquerque, diretor da HG Consultoria, não vê sentido nessa lógica. Adverte que, com esses e outros argumentos, a categoria mostra despreparo, não a necessária capacidade de previsão. “Como foi em outras Copas, esta será uma excelente oportunidade para que o empresário brasileiro exiba seus produtos e acerte novos negócios. É um grave equívoco contar com o sumiço dessa clientela hoteleira no período. Ao contrário do que diz o segmento hoteleiro, é alto o risco de que faltem acomodações.”

Caio Carvalho, ex-presidente da SPTuris – deixou o cargo há um mês, após sete anos de gestão –, adverte que os investidores estão excessivamente aferrados a uma visão de curto prazo: “Só querem saber das áreas nobres, onde não há espaço para construir mais nada – quando seria bem mais barato e mais rentável subir hotéis na periferia, que conta com alto potencial de valorização até 2020”.

O novo presidente, Marcelo Rehder, ainda espera que 10 novos hotéis sejam construídos até 2014. Mas a perspectiva de que fiquem concluídos até lá é baixa.

Albuquerque diz que a falta de vagas será inevitável. E aponta como solução um improviso semelhante ao de outras cidades em que ocorrem grandes eventos: trata-se de aportar navios de turismo no litoral, acoplados a transporte ultrarrápido para a capital, para hospedar visitantes. Seria um quebra-galho coincidente com as férias escolares, em geral de tráfego mais intenso entre São Paulo e o litoral paulista. Em todo o caso, quem tiver ideia melhor que a apresente. /COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

CONFIRA

No início deste ano, nenhum analista do setor conseguiu prever um estrago tão grande no desempenho do mercado de ações do Brasil quanto o que ocorreu: queda de 18,1% no Índice Bovespa, para 56.754,08 pontos. Erraram por larga margem. Não conseguiram projetar que a crise global – especialmente as mazelas da área do euro – teria esse efeito. E, no entanto, não só o desempenho da economia brasileira, como também o das principais empresas, na média, estão sendo considerados fortemente positivos. Assim escaldados, os analistas começam 2012 muito prudentes. Não ousam apostar numa forte virada.