A inflação, como é que fica?

A inflação, como é que fica?

Celso Ming

15 de abril de 2014 | 21h00

O governo Dilma mostra certa perplexidade diante da escalada dos preços. Já entendeu que é alto o risco de que a inflação anual de 2014 salte para acima do teto da meta, de 6,5%, mas aparentemente não sabe como enfrentá-lo.

A Pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central (BC), já aponta projeção de 6,47% no período, número que tende a crescer nas próximas semanas.

Embora o negue, o BC está sendo surpreendido. Em vez de comandar as expectativas, vem sendo rebocado por elas. Como não tem resposta, o governo Dilma prefere o discurso de que a inflação não é tão grave e que a dinâmica da economia corrigirá eventuais desvios produzidos pelos choques de oferta de alimentos. O BC conta com os efeitos positivos da valorização do real (queda do dólar), o que pode ajudar a reduzir os preços, e, ainda, até com o marasmo interno, que pode frear a demanda e os preços.

Após a última reunião do Copom, nos dias 1.º e 2 de abril, o BC vinha dando a entender que pararia de apertar a política monetária. Seu principal argumento é que a carga dos juros ainda não produziu todo o efeito esperado, daí por que seria preciso dar tempo ao tempo.

O problema é que a inflação nos próximos três ou quatro meses deve rodar acima do teto da meta e isso, por si só, tende a acionar os mecanismos de indexação (correções automáticas de preços), especialmente se o governo atender à pressão da indústria de veículos e baixar mais incentivos para destravar o consumo.

Boa parte dessa perplexidade tem origem na postura original do governo, de descrédito da política de metas de inflação, “que só favorece os banqueiros”. Em 2011, a decisão da presidente Dilma foi derrubar os juros básicos (Selic) para os dois pontos porcentuais ao ano em termos reais (descontada a inflação), na certeza de que não ocorreria nada, como se o Brasil pudesse repetir os padrões dos países mais avançados, que fixaram os juros perto de zero sem que a inflação ameace avançar para além de 2% ao ano.

A estratégia da derrubada da Selic tinha por objetivo economizar recursos com o pagamento do serviço da dívida para serem direcionados para projetos sociais. Essa postura foi acompanhada da política de rédea mais solta nas despesas públicas e por permitir maior desvalorização do real (alta do dólar). O arranjo, que se denominou de Nova Matriz de Política Macroeconômica, produziu mais frustrações do que resultados.

Nesse ambiente de consumo alto e frouxidão de controles, a inflação disparou. A partir de abril de 2012, o BC retomou o aperto monetário, como único recurso à mão para conter a alta.

O governo sente que o sapato está apertando. De um lado, gostaria que o BC deixasse de puxar pelos juros, porque, além de cara, essa política não está mostrando serviço. De outro, entende que não é bom para a atual estratégia deixar o flanco tão exposto em pleno debate eleitoral, por mais que tente enfatizar outros pontos positivos da política econômica na percepção do eleitor, como o baixo nível do desemprego e a farta transferência de renda para os mais pobres.

Por ora, a atitude do governo é a do goleiro traído pela trajetória da bola, que só pode torcer para que o gol não ocorra.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do volume de vendas do comércio varejista restrito nos últimos 13 meses.

Mais fracas

Os últimos dados sobre as vendas do varejo que figuram no gráfico foram divulgados ontem, mas são de fevereiro – e já estamos em abril. O que dá para dizer a partir dessas estatísticas e do movimento já conhecido é que o mercado de consumo opera mais contido neste início de ano, especialmente o setor de veículos (que não está no gráfico), onde se vê quebra de 7,6% das vendas em fevereiro em relação ao mês anterior.

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