Inflação pancada

Inflação pancada

O salto da inflação acontece porque a economia do Brasil está desarrumada em consequência das opções equivocadas de política econômica adotadas nos últimos quatro anos

Celso Ming

08 de abril de 2015 | 21h00

Não é porque tenha vindo um pouco abaixo do esperado que este avanço do IPCA em março, de 1,32%, tenha deixado de ser inflação paulada.

É a maior inflação mensal desde fevereiro de 2003 e a mais alta em meses de março desde 1995. Em apenas três meses atingiu 3,83%, mais de 85% da meta de 4,5%.

A alta de 3,37% dos preços administrados, aqueles que dependem de lei ou de autorização do governo, teve forte impacto em março (veja o Confira). Somente as tarifas da energia elétrica saltaram, em média, 22,08%. Sozinhas, elas foram responsáveis por mais da metade da inflação de março. Este é um processo que começou ainda no ano passado. Em 12 meses, os preços da energia elétrica avançaram 60,42%.

IpcaMarco2015

Mas não cabe insistir em que esta seja uma inflação corretiva, puxada pelos inevitáveis tarifaços. É também isso, mas não só isso. Desta vez, nada menos que 74% dos preços que fazem parte da cesta de consumo do brasileiro sofreram elevação. Isso indica que a inflação está muito espalhada e não só concentrada nos preços administrados. Como atinge fortemente itens essenciais do custo de vida, como alimentos (1,17% mais caros), aponta para raízes mais profundas.

Embora declinante, a inflação dos serviços continua forte. Em 12 meses, perfez 8,02%. É indicação de que a demanda continua esticada. Como sofre baixa concorrência dos importados, a alta dos serviços só tende a ser contida por redução das despesas públicas ou por redução da ração de moeda na economia (alta dos juros). Se for bem-sucedido, o ajuste das contas públicas cumprirá parte da missão de controlar a inflação. Mas ainda sobra muito a fazer para o Banco Central. Esta é a principal razão pela qual não se pode julgar próximo o fim do ciclo de alta dos juros básicos, hoje nos 12,75% ao ano, nível que já está entre os mais altos do mundo.

Esse salto da inflação acontece por aqui quando nas economias maduras a tendência é de deflação, acentuada agora com a derrubada dos preços dos combustíveis. Se, no Brasil, a inflação caminha na contramão, não é porque a crise mundial esteja braba, como insiste em afirmar a presidente Dilma, mas porque a economia do País está desarrumada em consequência das opções equivocadas de política econômica adotadas nos últimos quatro anos.

Como a maior parte do processo de realinhamento de preços já foi descarregada sobre os preços, neste e nos próximos meses se espera uma certa desaceleração da inflação. No entanto, quando medido em 12 meses, o IPCA pode se aproximar dos 9%. Se, por exemplo, em abril se repetisse a evolução do índice de março (1,32%), a inflação em 12 meses saltaria para 9,0%. Medida pela Pesquisa Focus do Banco Central, a projeção média do mercado financeiro para o IPCA deste ano, em dezembro, é de 8,2%.

Os dirigentes do Banco Central continuam garantindo que a inflação convergirá para o centro da meta (4,5%) em 2016. É afirmação não suficientemente demonstrada, como tantas outras. O mercado financeiro está tomando apenas como intenção, ou aquilo que os ingleses chamam wishful thinking.

CONFIRA:

PrecosMAR2015

Aí está a comparação entre a evolução dos preços livres e a dos administrados nos últimos 24 meses.

Regras do pré-sal
Finalmente, o governo federal passou a primeira dica de que é preciso rever o marco regulatório do pré-sal. Nesta quarta-feira, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, reconheceu que é inevitável agora a revisão da exigência de que a Petrobrás participe como operadora única em pelo menos 30% dos investimentos no pré-sal. Braga disse, também, que é preciso rever o estatuto do conteúdo mínimo nacional nos investimentos na área.