Isolamento

Isolamento

Celso Ming

05 de junho de 2013 | 08h51

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de fazer séria advertência de que o governo brasileiro pouco ou quase nada está promovendo para abrir mercados para o setor produtivo do País.

No mundo inteiro, os acordos vão se multiplicando, os concorrentes do Brasil não param de acertar preferências comerciais e, assim, estão cada vez mais dentro do jogo.

Enquanto isso, o Brasil vai ficando de fora, cada vez mais isolado. Aceitou a lengalenga dos hermanos argentinos de que não aguentam nenhum passo em direção à liberação comercial, porque mataria a sua indústria. Fica esperando que os argentinos saiam da encalacrada em que estão.

Bateu o desespero nos dirigentes da indústria depois que México, Chile, Peru, Colômbia e, provavelmente, também o Paraguai, o equivalente a 35% do PIB da América Latina, anunciaram que estão construindo a Aliança do Pacífico, com proposta de liberar imediatamente nada menos que 90% do comércio entre eles.

A CNI lembra ainda que vem aí o Acordo Trans-Pacífico, “que unirá sob um mesmo chapéu as economias da Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã”. É um conjunto poderoso, que perfaz quase um quarto do comércio mundial.

Os dirigentes da indústria estão se dando conta de que a paralisia nas negociações comerciais do Brasil vai fechando o mercado externo para eles e isso significa ainda menos oxigênio para a combalida produção do setor.

Antes de avançar, convém pontuar que os dirigentes da indústria – não só da CNI, mas, com algumas exceções, também da Fiesp – aceitaram bovinamente até aqui o jogo do governo. Sentiram grande alívio quando o Itamaraty desistiu da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), defendida pelos Estados Unidos, e pouco fizeram para remover as travas do comércio com a Argentina, hoje reconhecidamente um caso perdido. Mesmo o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, até anteontem entusiasta do arranjo de política econômica da Argentina, considerada por ele “modelo para o Brasil”, já reconhece (“com tristeza”) que “a estratégia de desenvolvimento da Argentina caminha para o fracasso”.

Bresser-Pereira não estava sozinho. Dentro do governo brasileiro ainda há especial admiração pelo conjunto de políticas – não somente as econômicas – adotadas pelo casal Kirchner, que acaba de completar dez anos de reinado dinástico.

Se é mesmo um fracasso, não dá para seguir com o rabo preso com eles, porque essa espera enorme pressupunha dificuldade apenas passageira.

(Apenas para passar um aspirador na memória, o Mercosul, que engloba Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela, é um tratado de união aduaneira. Por suas cláusulas, os países sócios não podem fazer nenhuma aliança comercial sem arrastar todos os outros juntos.)

Enfim, se é para avançar pelo caminho das novas parcerias comerciais sob a égide do Mercosul, não há muita escolha. Ou o governo brasileiro trata de rebaixar o status do Mercosul a área de livre comércio e, nesse caso, as negociações comerciais podem seguir sem a Argentina; ou espera, sabe-se lá quanto, até que a Argentina mude tudo e se recupere.

CONFIRA:

No gráfico, o desempenho da produção industrial medido pelo IBGE.

O lado bom. A recuperação da indústria é uma boa notícia, especialmente depois de uma paradeira tão longa.

O lado não tão bom. Mas é preciso cuidado na análise dos números. Eles estão fortemente concentrados na produção de veículos, que foi turbinada com isenções tributárias. Não é uma chuva criadeira, bem espalhada, e não há segurança de que isso mude tão já. Ao contrário, a inflação vai derrubando o mercado e pode esvaziar uma virada.