Juros e câmbio

Juros e câmbio

O primeiro impacto da alta dos juros básicos (Selic) definida quarta-feira pelo Copom foi a forte baixa do dólar no câmbio interno

Celso Ming

30 de outubro de 2014 | 21h00

O primeiro impacto da alta dos juros básicos (Selic) definida quarta-feira pelo Copom foi a forte baixa do dólar no câmbio interno (queda de 2,11% sobre o fechamento anterior). Esse pode ter sido o efeito imediato pretendido.

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O comunicado divulgado logo após o término da reunião do Copom faz menção à necessidade de agir para enfrentar as consequências inflacionárias provenientes do ajuste dos preços relativos. Nesse universo, não estão apenas as correções das tarifas dos combustíveis, da energia elétrica e dos transportes urbanos, hoje represadas, mas, também, a tendência à disparada das cotações do dólar no câmbio interno, o que também produz inflação, na medida em que encarece os importados.

Dito de outra forma: o baixo crescimento econômico é problema; a inflação é problema; o aumento do rombo das contas públicas, outro problema. Mas problema igualmente preocupante é a deterioração das contas externas.

O déficit em 12 meses nas Contas Correntes, onde vão englobados os fluxos de pagamentos do comércio exterior (de mercadorias e serviços) mais as transferências unilaterais, vai se aproximando perigosamente dos US$ 90 bilhões (4% do PIB). E já não está sendo compensado, como acontecia há alguns meses, com a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos.

Mais ainda, os preços das commodities (cerca de 50% das exportações brasileiras) estão em retração e devem cair ainda mais com a perspectiva de valorização do dólar nos mercados depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) anunciou a suspensão das operações de compra de títulos. A queda dos preços das commodities, por sua vez, aponta para redução do valor das exportações brasileiras e, portanto, para mais déficit em Conta Corrente.

Isso não é tudo. Para meados de 2015 está sendo esperado o início da operação de enxugamento dos dólares emitidos pelo Fed, manobra que deverá reduzir as disponibilidades de moeda estrangeira no mercado internacional.

Daí a necessidade de atrair mais capitais para ajudar a fechar as contas externas. Em junho de 2013, o governo Dilma já havia derrubado a zero o Imposto sobre Operações Financeiras na entrada de moeda estrangeira para aplicação em renda fixa no Brasil. A intenção também era atrair mais recursos externos.

A alta dos juros estimula a entrada de capitais porque torna mais atraentes as operações de arbitragem com juros, ou seja, estimula a tomada de empréstimos externos a juros que hoje rastejam em torno dos 3% ao ano, para reaplicá-los no mercado brasileiro onde agora rendem, no mole, 11,25% ao ano.

Há alguns meses, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, condenava essa entrada de dólares, por entender que são capitais especulativos – o que de fato são, sempre prontos a levantar voo. Além disso, criticou o Fed por despejar tantos dólares nos mercados e, assim, empobrecer os vizinhos com os efeitos de uma guerra cambial.

Mas há tempos, como os de agora, em que o indesejado se torna desejado. Não se pode sempre ter o luxo de brindar com uma taça de Romanée Conti…

CONFIRA:

CreditoEstoquesSet

 

Esta foi a evolução dos estoques de crédito do sistema bancário, tanto no segmento livre (52,9% do total) como no direcionado (obrigatório).

IGP-M
A variação do IGP-M vai ficando achatada em relação à inflação. Isso acontece porque esse indicador leva 60% de preços por atacado, que agora estão em queda. O IGP-M é usado para reajuste dos aluguéis apenas porque está sempre disponível a cada dia 30. Mas é uma distorção amarrar o valor dos aluguéis ou os empréstimos bancários à variação dos preços do minério de ferro ou do ácido sulfúrico.

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