Mais coerência

Celso Ming

29 de junho de 2011 | 19h00

Sob vários aspectos, o Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quarta-feira está mais equilibrado e, desta vez, não tenta forçar a mudança das posições dos “fazedores de preço” com argumentos que mais têm a ver com apostas do que com o vigor da política.

Isso aconteceu no primeiro Relatório deste ano, quando o Banco Central, conduzido pelo recém-empossado Alexandre Tombini, pretendeu vender a ideia de que os efeitos colaterais das chamadas medidas macroprudenciais (restrições à expansão do crédito) poderiam compensar certo atraso no acionamento da política de juros.

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Tombini. Recuperando o tom (FOTO: JF DIORIO/AE)

Há outras quatro observações relevantes a se fazer sobre esta edição do Relatório. A primeira delas está no tom mais otimista do que o esperado em relação aos riscos que corre a economia mundial. Enquanto os analistas de maior peso avisam que não foi superada a ameaça de séria desorganização do mercado financeiro internacional, em consequência da deterioração fiscal da União Europeia e dos Estados Unidos, o Banco Central prefere se ater à “hipótese de continuidade de recuperação da atividade (…) e em ritmo mais moderado do que o esperado quando da publicação do último Relatório”. Desta vez, se sobrevier o pior, não será possível alegar que não se poderia esperar por um efeito semelhante ao que ocorreu quando da quebra do Lehman Brothers, em 2008.

Segunda observação: o Relatório parece sobrevalorizar o ajuste das contas públicas por meio de cortes no Orçamento da União. Não é o que está acontecendo. A obtenção de melhor resultado fiscal não se deve à redução firme das despesas públicas, mas ao aumento da arrecadação.

A terceira observação tem a ver com a ênfase dada ao impacto inflacionário da expansão dos salários. Com mais clareza do que das vezes anteriores, o Banco Central reconhece que o mercado de trabalho está excessivamente aquecido e que a nova rodada de negociações salariais vai se concentrar num período (julho, agosto e setembro) em que a inflação em 12 meses estará no seu máximo. Mais ainda, dessa vez não se omite quando se trata de avaliar o impacto inflacionário das novas regras de reajuste do salário mínimo. O problema, aí, está na generalização de reajustes reais de salário “em níveis não compatíveis com o crescimento da produtividade”, fator que tende a puxar a renda para níveis acima da capacidade de oferta da economia, o que é inflacionário.

Finalmente, o Banco Central enfatizou de maneira mais veemente a necessidade de coordenação das expectativas de inflação. Teme que a excessiva esticada dos preços no final de 2010 e no início deste ano contamine demais a disposição de remarcar preços na economia. Mas, se esse risco não é desprezível, seria necessário reconhecer também que a forte descoordenação das expectativas nos primeiros meses do ano somente aconteceu porque o Banco Central errou nos diagnósticos e demorou demais para atacar a inflação.

Pareceu, por exemplo, ter comprado o argumento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que a alta de preços acontecia não em decorrência do aumento da procura provocado pelas despesas excessivas do governo, mas de um choque de oferta de alimentos, em consequência de problemas climáticos. Seguia-se então que não havia muito o que fazer e essa omissão só foi revertida quando a presidente Dilma Rousseff lembrou que a prioridade de seu governo é o combate à inflação, não o crescimento insustentável.

CONFIRA

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Aí vai o gráfico que mostra a trajetória de queda do IGP-M, o índice mais usado para reajuste dos aluguéis.

Rasteira. O resumo da ópera nesse projeto da megafusão entre Pão de Açúcar e Carrefour é mais ou menos este: o empresário Abílio Diniz se arrependeu de ter assinado contrato com o Grupo Casino, que lhe dava o direito de adquirir o controle acionário do Pão de Açúcar. Por isso, armou esse esquema em que passa a perna nos sócios. Tudo isso, com a chancela do BNDES, que se prontificou a liberar mais de R$ 4 bilhões para viabilizar a operação.