Mais que troca de chefias

Mais que troca de chefias

É preciso mudar muita coisa na Petrobrás e no marco regulatório do petróleo

Celso Ming

18 Dezembro 2014 | 21h00

Nesta quinta-feira, o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Petrobrás, Marco Maia (PT-RS), voltou a defender o afastamento sumário da atual diretoria da Petrobrás.

Não se trata aqui, argumentou Marco Maia, de incriminar os diretores, uma vez que nenhuma acusação pesa sobre eles, a não ser a de terem ignorado o desvio colossal de recursos do caixa da empresa – e não de um trocadinho qualquer.

Trata-se de garantir um mínimo de credibilidade e de condições práticas de administração: “A direção da Petrobrás não tem mais condições políticas e até mesmo emocionais para continuar conduzindo a maior empresa do Brasil”, insistiu.

Maia. Não há condições

Maia. Não há condições (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Por aí se vê que até mesmo os parlamentares chegam à conclusão de que é preciso afastar os políticos das principais fontes de recursos do País. São, no fundo, as mesmas razões que pedem autonomia operacional do Banco Central. Os políticos têm de ser mantidos a distância das impressoras de moeda.

No entanto, diante de tudo o que aconteceu, não basta afastá-los e os que sobrepõem outros interesses ao interesse público e substituí-los por quadros de carreira. Provavelmente também não basta chamar profissionais da administração para mudar tudo lá dentro. É preciso mudar muita coisa na Petrobrás e no marco regulatório do petróleo, e isso significa muito mais.

Ficou comprovado que a Petrobrás não dá conta do que já tem para fazer. A crise detonada pela Operação Lava Jato e a derrubada dos preços do petróleo que veio quase concomitantemente só estão tendo o alcance que vêm tendo porque a empresa já estava desestabilizada. Vinha sendo sangrada por uma política represada de preços, porque o governo não queria combater a inflação pelos meios convencionais. A Petrobrás carrega um passivo de US$ 241,4 bilhões, correspondente a quatro vezes sua capacidade de formação de caixa, o que também pulveriza seu poder de investimento. Está obrigada a ser a única operadora das áreas do pré-sal para as quais têm de aportar pelo menos 30% dos recursos e, além disso, está sujeita a restrições de todo o tipo, especialmente cumprir metas de conteúdo nacional que a sobrecarregam com custos, derrubam sua eficiência operacional e furam seus cronogramas de investimento.

Até agora, a sociedade brasileira se comportou como se as riquezas do petróleo fossem eternas, a serem exploradas sem nenhum sentido de urgência. A derrubada dos preços em quase 50% em apenas seis meses mostrou que o petróleo é, sim, substituível. Sua era pode esgotar-se rapidamente, sem que se esgotem as reservas globais. Por toda parte, as novas exigências ambientais vêm impondo a produção de energia a partir de fontes não convencionais, como raios solares e vento, que estão ficando cada vez mais baratas. E, a partir do que aconteceu no passado, pode-se imaginar que, mais cedo ou mais tarde, novas tecnologias se encarregarão de produzir energia a partir de outras fontes não poluidoras e a custos mais baixos.

Isso exige que a sociedade brasileira repense sua matriz energética e também sua política do petróleo, e não se limite a apenas substituir as chefias sem mudar o essencial.

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