Mais sol para todos

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O Brasil é uma terra ensolarada, mas essa energia de graça é subaproveitada; A fonte solar contribui com apenas 0,01% da matriz de energia elétrica do País

Celso Ming

08 de novembro de 2014 | 16h00

O Brasil é uma terra ensolarada, mas essa energia de graça é subaproveitada. A fonte solar contribui com apenas 0,01% da matriz de energia elétrica do País (veja o gráfico abaixo).

Não é difícil de entender por que isso acontece. Os equipamentos por meio dos quais essa energia é captada, as tais placas fotovoltaicas, são caros. São equipamentos importados e, por isso, sujeitos à variação cambial.

Isso já configura um jogo viciado. A energia solar é de alto custo porque não tem escala de produção e não tem escala porque é de alto custo. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) se propôs a quebrar essa escrita, por meio da fixação de um preço mais alto a ser pago ao produtor de energia solar. No último leilão, realizado no dia 31 de outubro, garantiu a compra do megawatt/hora (MWh) a R$ 262, substancialmente mais alto do que os R$ 144 pagos pelo MWh produzido por fonte eólica. O leilão foi um sucesso. Os futuros fornecedores se comprometeram a entregar o MWh por R$ 215,12 (deságio de 17,9%). Falta saber se a iniciativa estimulará os produtores mundiais a se instalarem no Brasil e, assim, a produzir placas fotovoltaicas a preços mais baixos.

EnergiaOrigem6nov

Mas esse segmento atacadista talvez não seja o de maior potencial. Quem olha a cidade de São Paulo de cima enxerga uma imensidão de telhados de indústrias, supermercados, shopping centers e, obviamente, também de casas e edifícios. Se nesses espaços fossem instaladas placas fotovoltaicas, a economia de energia elétrica poderia ser enorme e a escala de produção desses equipamentos ainda maior.

Mas, outra vez, entra o problema do custo. Uma instalação de 15 m², suficiente para abastecer de energia elétrica uma casa de quatro pessoas, não sai por menos de R$ 12 mil. Só com o abatimento na conta de luz, o valor pode ser amortizado em cerca de sete anos, de acordo com os cálculos do coordenador do Grupo de Pesquisa Estratégica em Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina, Ricardo Ruther.

É um custo inicial alto quando comparado com o de apenas pedir a ligação externa da concessionária local. Por isso, o professor de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB) Rafael Shayani sugere que o governo arme um projeto que dê estímulos a esses microgeradores, ou seja, às pessoas ou empresas que optarem pela energia solar. Pode ser boa opção que dispensaria novas termoelétricas e muitos quilômetros mais de linhas de transmissão, num quadro de crescente incerteza que envolve o setor de energia elétrica no Brasil.

Para isso, não é preciso começar do zero. Desde 2012, a Resolução 482 da Aneel obriga as distribuidoras de energia a integrar à sua própria rede aqueles que instalarem painéis de energia solar. O sistema é de compensação. Relógios especiais medem a energia gerada (e repassada à rede) e a consumida (tomada da distribuidora) para calcular a conta de luz destas residências. Hoje, dos 259 geradores de energia solar no País, 234 são microgeradores e operam nessas condições.

Esse mecanismo, no entanto, contém uma aberração: na maioria dos Estados o microgerador paga ICMS até mesmo sobre a energia elétrica gerada.

CONFIRA:

Em Campo Grande, o militar aposentado João Eudes da Silva, de 51 anos, usa energia solar há dois anos e, com isso, tem uma economia mensal na conta de luz de R$ 400. “A instalação custou R$ 18 mil, mas em cinco anos e meio já terei o retorno do investimento”. Ele pretende dobrar sua capacidade de geração de energia solar.

Valeu
Em uma cobertura em Niterói, no Rio de Janeiro, Pedro Peres Filho, de 86 anos, decidiu instalar um teto solar. Pela segunda vez seguida, a conta de luz que vinha acima dos R$ 400, veio em torno dos R$ 90. O investimento foi de quase R$ 30 mil. Peres acha que valeu a pena.

Confuso
A ginecologista Leila Maria Fróes, de 55 anos, instalou um teto solar na sua casa, onde funciona também seu consultório, em Ribeirão Preto. Em média, consegue economia de 50% na conta de luz: “Foi também uma opção ambiental. Mas fico confusa sobre as contas. Esse mês, por exemplo, paguei R$ 100 de imposto”, diz a médica que fez um investimento de R$25 mil. / COLABOROU LAURA MAIA

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