Mais um pibinho

Mais um pibinho

O quadro geral é de estagnação do setor produtivo; Ainda na última quinta-feira, o Banco Central mostrou no seu Relatório de Inflação que prevê para 2015, em relação a 2014, uma evolução negativa do PIB, de 0,5%

Celso Ming

27 de março de 2015 | 21h00

Os números do PIB divulgados nesta sexta-feira foram o miserê que já se previa.

Não dá para afirmar que, ao longo de 2014, o Brasil esteve mergulhado na recessão porque o resultado final ainda foi positivo: crescimento de 0,1%, quase nada acima de zero, mas, para todos os efeitos, acima de zero.

O quadro geral é de estagnação do setor produtivo. Ainda na última quinta-feira, o Banco Central mostrou no seu Relatório de Inflação que prevê para 2015, em relação a 2014, uma evolução negativa do PIB, de 0,5%.

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No ano passado, o resultado mais traumatizante foi o da indústria de transformação: queda de 3,8%. É a confirmação do esvaziamento do setor e da baixa eficácia das políticas anticíclicas do governo anterior: desonerações, redução de impostos, créditos subsidiados do BNDES, reservas de mercado. O real artificialmente valorizado ajudou a cavar o fosso, mas o buraco maior é mais embaixo. A indústria está envelhecida, excessivamente protegida e com dirigentes que aplaudem a distribuição de analgésicos e não se dispõem a submeter seus negócios a tratamentos mais eficazes – e mais dolorosos.

A surpresa negativa na área dos setores produtivos que compõem o PIB foi o fracasso da construção civil, numa conjuntura em que o mercado imobiliário parecia esbanjar saúde. O tombo em relação a 2013 foi de 2,6%. Mas esse resultado parece mais relacionado com a prostração do subsetor da infraestrutura do que com o da construção de habitações.

O setor de serviços chegou a compensar em parte o desempenho ruim de toda a área produtiva. Cresceu 0,7%, com destaque aos serviços de informação, que avançaram 4,6%. A nova metodologia mostrou que o setor de serviços é ainda mais importante do que já era. Tem um peso de 71% no PIB total. É também aí que mais se expande o emprego. A agropecuária teve um desempenho relativamente baixo (avanço de 0,4%) não porque tenha produzido pouco, mas porque foi prejudicada pela queda da renda em consequência da redução das cotações internacionais das commodities.

Avaliado o PIB pelo ângulo da demanda, o resultado mais acachapante, embora esperado, é o do investimento, cujo nome técnico é Formação Bruta de Capital Fixo. Houve aí um tombo de 4,4% em relação a 2013, que fica ainda mais relevante quando comparado com o crescimento de 6,1% no ano anterior.
Para essa derrocada do investimento concorreu grande número de fatores adversos: a queda brutal da confiança na política; a crise da Petrobrás, obrigada a reduzir drasticamente seu plano de negócios; as lambanças na condução dos leilões de concessão de serviços públicos; e o impressionante encolhimento da poupança nacional (veja o Confira).

Em matéria de desempenho do PIB, estamos longe de ter atingido o fundo do poço, como o Banco Central tem advertido. Este ano tende a aprofundar os números negativos. A diferença é a de que está em curso um programa de ajuste, cujo objetivo é tirar a economia do atoleiro. Duas dúvidas ainda esperam esclarecimento: (1) se esse ajuste será suficiente para garantir a virada em 2016 ou 2017; e (2) se, na crise em que está, o governo Dilma terá força para levá-lo até o fim.

CONFIRA:

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Veja como se comportam o investimento e a poupança do Brasil.

Amanhã comprometido
Como o investimento de hoje é o PIB de amanhã, também o PIB de amanhã parece comprometido. Para crescer 3,0% o investimento teria de ser de pelo menos 22% do PIB. Fechou 2014 a 19,7% e, pelo ritmo atual, cairá ainda mais ao longo deste ano. Por trás do baixo investimento está a baixíssima poupança. O brasileiro guarda apenas 15,8% de sua renda. Para comparar, o padrão asiático é de poupança e investimento superiores a 30%. O da China gira em torno dos 50%.

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