Mais um refresco

Celso Ming

27 de junho de 2012 | 20h00

O novo pacote anunciado nesta quarta-feira pelo governo, denominado PAC Equipamentos, pretende reativar o sistema produtivo com despesas de governo. É mais uma tentativa de estimular o crescimento do PIB, cada vez mais decepcionante, com uma política anticíclica, ou seja, na contramão da atual paradeira. Infelizmente, é uma dessas iniciativas das quais não se pode esperar grande resultado.

O governo Dilma passou meses e meses avisando que, apesar de gravíssima, a crise global não teria grande impacto sobre a economia brasileira, dada a solidez dos seus fundamentos. No entanto, de algumas semanas para cá, a mesma crise internacional, especialmente a encalacrada do euro, passou a ser usada para justificar a incapacidade do governo Dilma de entregar o avanço do PIB, de pelo menos 4,5%, prometido ainda em 2011 e nos primeiros meses deste ano. Essa busca agora insistente de um culpado externo para o atual pibinho nacional é um fator negativo porque tende a minar a credibilidade do governo na condução da política econômica.

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Dilma. Mais um pacotinho (FOTO: DIDA SAMPAIO/AE)

A crise mundial está sim atrapalhando o desempenho da economia brasileira, porém não dá para exagerar esse efeito. Não há, por exemplo, forte queda das exportações brasileiras. Apesar da desaceleração, as encomendas externas estão 1,3% mais baixas nestes seis primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano anterior. É inegável que o ambiente de incertezas produziu redução dos investimentos por parte do setor privado. Mas esse ambiente de insegurança não se deve apenas à crise externa; deve-se, também, ao intervencionismo excessivo e errático do governo. Quando nada, o empresário mantém engavetados seus projetos de expansão aparentemente também porque fica à espera de mais benefícios fiscais e creditícios que a todo momento o governo parece disposto a dar.

Nas encomendas governamentais anunciadas nesta quarta-feira figuram caminhões, tratores, retroescavadeiras, ambulâncias, motocicletas para a polícia rodoviária, ônibus escolares e carteiras escolares. Compras ajudam, sim, a estimular certos segmentos do setor produtivo, desde que haja aumento significativo do dispêndio público. No entanto, este pacote não passa de uma “antecipação de compras”, correspondente a R$ 8,4 bilhões, com baixo volume de verbas adicionais, quase uma insignificância quando o objetivo é garantir o crescimento do PIB de pelo menos 2,5% neste ano. E uma antecipação de compras significa, também, que não haverá as mesmas compras no agendamento anteriormente previsto. Este é mais um sinal de que o governo Dilma não dispõe de muita munição para promover a desejada arrancada. Se houvesse uma disparada do dispêndio público, teríamos outro problema grave, o da redução do superávit primário, a parcela da arrecadação destinada ao pagamento da dívida, prevista para ser de 3,1% do PIB (cerca de R$ 130 bilhões).

Nesta quarta-feira, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, reconheceu que o PAC Equipamentos terá um impacto no crescimento da indústria não superior a 0,12%. Levando-se em conta que a indústria não crescerá muito mais do que 2,0% neste ano, fica aí mais bem quantificado seu baixo potencial de retorno. Não passa de refresco. Nessas condições, iniciativas desse tipo cumprem mais a função de mostrar que o governo está fazendo alguma coisa do que de garantir eficácia para sua política.

CONFIRA

TJLP. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), vigente nos empréstimos do BNDES, foi reduzida nesta quarta-feira de 6,0% para 5,5% ao ano. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a redução da TJLP e dos juros básicos (Selic) mais “a ação permanente sobre o câmbio” como integrantes da política de aceleração do crescimento

E tem mais. Na falta de elementos mais sólidos, o governo apontou o baixo índice de desemprego, a expansão da massa salarial e a inflação em desaceleração como fatores adicionais capazes de ajudar a recuperação. O problema é que até agora não funcionaram nessa direção.

Eike X. O empresário Eike Batista pode estar correto quando garante que a produção de petróleo de sua empresa OGX saltará dos atuais 7,5 mil para 250 mil barris diários ao final de 2013. Só que o descumprimento de promessas anteriores provocou uma forte erosão na credibilidade do empresário. Apenas uma consistente apresentação de resultados parece capaz de reverter essa situação.