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Celso Ming

19 de setembro de 2013 | 20h00

Os impressionantes vaivéns do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) vêm sendo interpretados como falhas graves de comunicação, como ainda nesta quarta-feira sugeriu o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mas devem ser vistos como muito mais do que isso.

É que ninguém sabe como navegar nessas águas. O presidente do Fed, Ben Bernanke, passou em maio um sinal de fumaça de que pretendia começar o processo de reversão da atual política agressiva de emissão de dólares. Foi o suficiente para provocar um cataclismo: as cotações do dólar e dos títulos dispararam nos mercados, as bolsas caíram e começou um movimento de fuga dos ativos de risco.

Até no Fed, as autoridades imaginaram que era coisa a ser mais bem preparada psicologicamente. Em seguida, os dirigentes do Fed, inclusive o próprio Bernanke, se sucederam em discorrer sobre a necessidade de começar a reduzir a gigantesca montanha de dólares, que já acumula US$ 3,6 trilhões e que continua à proporção de US$ 85 bilhões por mês.

Essas emissões foram parte do plano para salvar o mercado da derrocada. Aproveitando-se da falta de inflação, os grandes bancos centrais passaram a comprar títulos públicos e privados, portanto, a despejar moeda, tanto para livrar as instituições financeiras de um desastre em cadeia como também para dispor ao mercado mais recursos para o crédito que, por sua vez, deveria concorrer para a retomada da atividade econômica e do emprego. O despejo de moeda não foi feito só pelo Fed, mas também por grandes bancos, como o Banco Central Europeu, o da Inglaterra, do Japão e da Suíça.

Na quarta-feira, foi lembrado aqui que o Fed parece ter chegado à conclusão de que o impacto a ser produzido pela redução das emissões de moeda atingiria proporções não imaginadas se coincidisse com novo aumento do risco fiscal dos Estados Unidos. Explicando melhor: o governo Obama só pode ampliar a dívida pública dos Estados Unidos até o teto, já muito próximo, dos US$ 16,7 trilhões. Sem autorização do Congresso para aumentar a dívida, teria de reduzir as despesas públicas, operação capaz de criar mais desemprego e novo colapso econômico.

Mas há outras agruras a enfrentar. Há alguns meses, a mera percepção de que se aproximaria a redução de compras de títulos pelo Fed já provocara, pelo efeito de oferta e procura, a disparada da remuneração (yield) dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (veja o gráfico).

A alta dessa remuneração vinha puxando os juros dos financiamentos imobiliários (hipotecas) e, assim, agravando as dificuldades de um setor muito estigmatizado, no qual a crise começou.

Outro efeito da alta de juros praticados pelo mercado seria o encarecimento do crédito para a produção, impacto que repercutiria também no nível de emprego dos Estados Unidos, ponto de alta vulnerabilidade política.

Em outras palavras, o desmonte do projeto salvador (as gigantescas emissões de moeda) pode causar estragos tão grandes ou maiores ainda do que aqueles que pretenderam ser evitados. E essa é a principal razão pela qual somente se saberá se todo esse processo deu certo quando ele tiver terminado.

CONFIRA:

No gráfico, a variação das cotações do dólar no mês de setembro mostra, no período, parte do impacto sobre o câmbio interno produzido pelas vacilações do Fed.

Não quero. O interesse de apenas 11 companhias de petróleo, incluída aí também a Petrobrás, mostra que o leilão do Campo de Libra não será o que esperava o governo Dilma. Exxon, BP e BG, por exemplo, estão acostumadas a explorar petróleo em países de altíssimo risco. Que risco ainda maior identificam no Brasil a ponto de abrir mão da maior reserva disponível no mundo?

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