Medo difuso

Medo difuso

Se novos trancos da economia internacional vierem, infelizmente a economia do Brasil não está preparada para enfrentá-los, porque está desequilibrada

Celso Ming

16 de outubro de 2014 | 21h00

Nesta semana, o mercado financeiro internacional foi tomado por ondas de medo que, desta vez, vêm com natureza diferente das turbulências que aconteceram em 2008 e 2009.

Não há o mesmo bloqueio generalizado do crédito que se viu então. As coisas vêm misturadas e pouco claras. Tudo se passa como se, além dos problemas reais, houvesse o medo difuso sabe-se lá de que coisas, que, por si só, se transforma em novo problema.

DOWJONES

Há, por exemplo, o medo do agravamento da recessão mundial, especialmente na Europa e no Japão, fator que poderá derrubar o comércio, a renda, o emprego e destruir empresas. A saudável Alemanha começa a sofrer de câimbras. A China está em desaceleração. Isso não está sendo inventado pelos catastrofistas de sempre. É o próprio Fundo Monetário Internacional que agora vem advertindo para o risco de agravamento da recessão global.

Há o medo de deflação, que é o mergulho persistente de preços, sugerida agora não só pela prostração da atividade econômica em grande número de países, mas, também, pela queda dos preços das commodities, principalmente do petróleo. Deflação aumenta as dívidas em termos reais, o que agravaria a situação financeira dos países, empresas e famílias já endividadas. Derruba a arrecadação (porque a maioria dos impostos é cobrada sobre o preço) e, assim, agrava o problema fiscal dos países que vêm mal das pernas. E adia as vendas, porque o consumidor espera para comprar quando os preços tiverem caído ainda mais.

Há, também, um medo generalizado de que a epidemia de Ebola se alastre e provoque impactos que hoje são pouco claros na economia mundial. Poderá bloquear o transporte, o turismo e grandes eventos. Não se pode ignorar, também, o risco de que grupos terroristas usem o Ebola como bomba humana para atacar concentrações urbanas no Ocidente. Por aí se vê que uma doença assim pode adquirir dimensões geopolíticas. E, por falar em geopolítica, há esses conflitos de controle ainda mais complicado na Ucrânia e no Oriente Médio, onde os jihadistas do Estado Islâmico estão desafiando os Estados nacionais.

Se as condições da economia global piorarem, como tanta gente vem advertindo, não será em consequência de um único fator, mas por uma conjugação deles. Esse agravamento tende a provocar novos problemas, como a deterioração da situação bancária, principalmente na Europa, onde ainda se concentram desequilíbrios dessa ordem.

É provável que essas ondas de medo estejam sendo agravadas porque a população não sente determinação nos dirigentes globais em como atacar esses focos. Apesar de toda a coordenação para contra-atacar a recessão, a economia mundial segue paralisada. Os grandes bancos centrais estão equipados para combater a inflação, e não a deflação. E, apesar das medidas profiláticas, o Ebola não vem sendo contido.

Se novos trancos vierem, infelizmente a economia do Brasil não está preparada para enfrentá-los, porque está desequilibrada. Hoje, a maior vulnerabilidade está na incapacidade do governo Dilma de reconhecer que a política econômica está errada.

CONFIRA:

IBCBRAGO

O gráfico mostra a evolução em sete meses do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Este é o indicador cuja função é antecipar o comportamento do PIB.

Insuficiente
O resultado de agosto foi um avanço da atividade econômica, de 0,27% em relação a julho, um pouco mais baixo do que o esperado pelos analistas. É uma melhora insuficiente para compensar o mau comportamento da economia nos meses anteriores. A prometida recuperação no segundo semestre, como assegura o governo, continua incerta.

Tudo o que sabemos sobre:

deflaçãomercado financeiro internacional

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.