Meias soluções

Celso Ming

25 de abril de 2012 | 20h00

Há pelo menos dois meses, dirigentes da Indústria vêm poupando críticas e reforçando elogios à política do governo Dilma.

Entendem, por exemplo, que providências tomadas no câmbio estão melhorando os preços dos produtos exportados e ajudando a indústria a competir no mercado interno. No entanto, em comparação com os praticados no exterior, os preços no Brasil continuam altos demais. Qualquer brasileiro que volta do exterior pode dar testemunho disso. E o que as famílias conseguem trazer de lá em confecções e aparelhos eletrônicos, apenas por uma fração do que pagariam aqui, segue a enervar os produtores no Brasil. Depois de tudo, a alta do dólar acumulada no câmbio interno nestes quase quatro meses de 2012 não passa de 0,75%.

Os mesmos dirigentes olham para os juros em queda e ponderam que um dos mais graves fatores do custo Brasil está sendo puxado para baixo. Mas, para quem recorre a bancos, essa redução é insignificante. Em dezembro, por exemplo, os bancos cobravam 17,4% ao ano nos empréstimos de capital de giro e 20,6% ao ano nas operações de conta garantida. Ao final de março, estavam, respectivamente, em 16,4% e 20,6%.

Os líderes da indústria apoiaram as novas regras para o setor de veículos – que, em tese, favorecem inovações – e o segmento de autopeças. Mas, ao mesmo tempo, sabem que os automóveis brasileiros se mantêm absurdamente mais caros do que os vendidos no exterior e, em alguns casos, não passaram do nível das carroças denunciadas pelo presidente Collor há 22 anos.

Os empresários aplaudiram a desoneração das folhas de pagamento para 15 setores como um passo, ainda que insatisfatório, na direção correta. E, no entanto, as primeiras informações dão conta de que, em média, a desoneração proporcionou uma redução de custos de somente 2% e 5%, dependendo do setor analisado.

Os mesmos dirigentes acabam de elogiar a decisão do Senado de terminar com a guerra dos portos, que até o final deste ano favorecerá a entrada de produtos importados em detrimento dos fabricados no País. Mas eles sabem que a guerra fiscal prossegue em outras modalidades Brasil afora.

Tudo isso é pouco para devolver competitividade ao setor produtivo nacional – e não só à indústria. Os impostos permanecem altos demais, a tarifa da energia elétrica é a quarta mais cara do mundo e a infraestrutura, ruim ou inexistente.

A presidente Dilma vem argumentando que as coisas estão sendo feitas dentro do politicamente viável. Esse fatiamento – tipo salaminho – possivelmente é o mal maior, porque passa uma temporária sensação de melhora das condições produtivas. No entanto, é uma melhora proporcionada pelo eterno provisório, denunciado por esta Coluna em outras edições. São decisões meia-boca que, ao contrário do que tanto se diz, vêm na direção errada, à medida que adiam soluções definitivas ou dispensam o que tem de ser feito para garantir o futuro do setor produtivo nacional.

É nesse sentido que seria melhor que tudo piorasse radicalmente, para que pudesse gerar o choque necessário para as verdadeiras viradas. Quando enaltecem essas meias soluções, os dirigentes dos empresários, na verdade, trabalham para acentuar o processo que eles chamam de desindustrialização do Brasil.

CONFIRA

CreditoMar2012.jpg

O gráfico mostra a evolução do estoque de crédito em relação ao tamanho da economia (PIB). Em 12 meses, avançou 18,0%, mais do que pretendia o Banco Central, que, para este ano, repete a meta do ano passado: crescimento de 15,0%.

Inadimplência. Há sinais de relativa saturação do mercado. A inadimplência (atrasos superiores a 90 dias) está estabilizada, mas no segmento dos financiamentos para compra de automóveis chegou a níveis (5,7%) que vêm levando os bancos a desacelerar essas operações.