Melhor para a Alemanha

Celso Ming

31 de dezembro de 2011 | 16h30

Há duas semanas, o portal da revista alemã Der Spiegel, das mais importantes do mundo, mostrou surpresa com o fato de que o empresário alemão mostra alto grau de confiança em relação a seus negócios em 2012. Enquanto os dos outros países do euro estão prostrados na recessão e no desemprego, sem ver o fundo do poço, os empresários alemães contam com mais lucros.

A conclusão foi tirada após pesquisa feita com 7 mil executivos de empresas da Alemanha. Eles mantêm a expectativa de que, apesar da crise, seus negócios aumentarão nos próximos 12 meses não só com os emergentes mas, também, com os demais europeus.

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É uma condição que reflete a crescente elevação da competitividade do setor produtivo alemão (e não apenas da indústria) em relação a dos demais países da Europa.

Graças à sua maior disciplina sindical e à sua capacidade de conter o avanço dos salários e das aposentadorias, os custos de produção na Alemanha sobem menos do que os dos vizinhos. Por isso, a Alemanha não só exporta mais para o resto do euro, como, também, abocanha fatia maior da renda produzida no bloco.

Esse fenômeno, cujo maior propagador é o analista do Financial Times de Londres Martin Wolf, já havia sido detectado por outros economistas da Europa. Eles preferem dizer que a Alemanha tem mais capacidade de gerar superávits no balanço de pagamentos. Mas, no fundo, a diferença é mesmo de maior competitividade, que não é coisa recente. Vem lá de trás, intensificada na década de 50, durante o chamado Milagre Alemão.

Enquanto cada país europeu teve sua própria moeda, a melhor condição competitiva alemã foi compensada com a valorização do marco alemão e as desvalorizações relativas das outras moedas, movimentos que ajudaram a restabelecer o equilíbrio. E, mesmo a valorização do marco, que tendia a elevar preços de produtos alemães em moeda estrangeira – e, assim, jogar contra a capacidade alemã de exportações –, foi enfrentada como desafio nacional para produzir ainda mais barato.

C0mo a moeda agora é comum, o ajuste puramente cambial já não é mais possível. No entanto, antes ou depois do euro, com ou sem crise, o efeito mais relevante é de que a economia alemã acabe tirando mais proveito do que as demais e se torne ainda mais competitiva.

Em parte, essa capacidade de contenção de salários e de aposentadorias se deve ao regime trabalhista alemão, que dá participação aos funcionários na diretoria das maiores empresas. Os sindicatos não só acompanham melhor o desempenho das empresas, mas mantêm comprometimento mais estreito com o futuro delas (e da economia).

O problema de fundo é que a apropriação desigual do bolo do euro tende a criar novas distorções e a acirrar as já existentes. Alguns analistas advertem que o alemão terá mesmo de se conformar em ter de pagar parcelas cada vez maiores das contas dos países deficitários. O difícil é convencê-lo a repassar aos vizinhos que levam a vida cigarreando o fruto criado ano após ano com tanto sacrifício.

CONFIRA

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Desde setembro, o governo Dilma parou de se queixar da guerra cambial deflagrada pelos grandes bancos centrais e resolveu taxar com o IOF as posições vendidas em câmbio no mercado futuro. O resultado foi a alta das cotações do dólar para um patamar ainda perto de R$ 1,85 por dólar. O governo queria uma desvalorização do real bem maior. No entanto, viu-se obrigado a parar por aí. Verificou que o setor produtivo está muito dependente de fornecimento externo de matérias-primas, componentes, conjuntos e capitais. Um dólar mais caro provocaria uma disparada nos custos das empresas.