Melhor para os chineses

Melhor para os chineses

O produto brasileiro tenderá a ficar mais caro porque enfrentará uma energia elétrica mais cara; Enquanto isso, os industrializados da China, dos EUA, do Japão e da Europa ficarão mais baratos

Celso Ming

16 Dezembro 2014 | 19h30

Um dos efeitos positivos da derrubada dos preços internacionais do petróleo é o substancial barateamento dos custos da energia nos países avançados. É o que está sendo saudado como fator de aceleração da recuperação da economia mundial que, em última análise, deverá beneficiar também o Brasil.

No entanto, com as enormes distorções que ainda prevalecem por aqui, este tende a ser novo fator de perda de competitividade da indústria. Apenas o repasse dos atrasos tarifários deverá aumentar os custos da energia elétrica para a indústria em 27,3%, só em 2015 (veja o gráfico).

EnergiaCusto2016

Assim, o produto brasileiro tenderá a ficar mais caro também porque enfrentará uma energia elétrica mais cara. Enquanto isso, os industrializados da China, dos Estados Unidos, do Japão e da Europa ficarão mais baratos porque contarão com uma redução dos preços da energia elétrica de 20% a 30%, e não com um aumento, como no Brasil.

A indústria nacional já vinha enfrentando custos desproporcionalmente mais altos com carga tributária, infraestrutura, juros e tantas coisas mais. Agora, é obrigada a engolir essas tarifas progressivamente mais altas de energia elétrica, justamente quando o resto do mundo está sendo beneficiado pela queda acentuada de preços.

O impacto sobre a indústria é tanto mais alto quanto maior for o peso da energia elétrica na estrutura de custos. Os setores eletrointensivos, como metalurgia de não ferrosos, química básica, vidro e cerâmica, estão seriamente ameaçados. Há ainda a petroquímica, que já vinha trabalhando com nafta, sua principal matéria-prima, a custos muito maiores do que os do mercado externo.

A desvantagem não provém apenas da energia elétrica, mas, também, dos combustíveis. Em princípio, os preços da gasolina e do óleo diesel teriam agora de cair, como acontece com o querosene de aviação que a Petrobrás está fornecendo a cotações equivalentes às do mercado mundial. Mas ninguém no governo admite a redução dos preços dos combustíveis agora, porque entende que, de alguma forma, tem de compensar a Petrobrás pelas perdas ao longo de todos esses anos, quando as tarifas ficaram represadas para cumprir a discutível política de preços destinada a conter a inflação.

Quanto maior a dependência do frete a óleo diesel, maior também o impacto sobre a indústria brasileira produzido por preços mais altos dos combustíveis do que os vigentes no mercado internacional. E esse impacto ficaria ainda maior se for confirmada a decisão do governo de voltar a onerar os combustíveis com a Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico, a Cide.

Atenção importadores: pode estar valendo a pena importar combustíveis, especialmente gasolina e óleo diesel, e repassá-los a preços substancialmente mais altos ao mercado interno, ainda que mais baixos do que aqueles que estão sendo cobrados pela Petrobrás.

Aí estão distorções que decorrem dos graves erros na condução da política de energia elétrica e dos combustíveis, que agora vão criando uma tempestade perfeita. Se o governo quer mesmo dar condições de competitividade à indústria, tem de mudar muita coisa.

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Aí está a cavalgada do dólar em rublos, que dá a ideia da virulência da desvalorização da moeda russa.

E vem mais
O banco central da Rússia elevou segunda-feira os juros básicos de 10,5% para 17,0% ao ano, como recurso para conter a desvalorização do rublo. Medidas complementares estão para ser tomadas, declarou ontem a presidente do banco central, Elvira Nabiullina. A derrubada dos preços do petróleo é o principal detonador de uma crise que lembra a de 1998. Não há nenhum sinal de que poderia contaminar os demais países emergentes.