Metamorfose

Celso Ming

17 de fevereiro de 2010 | 19h00

A crise é a mesma, mas vai mudando de forma e de nome. Começou sendo conhecida como a crise das hipotecas podres (subprime). Depois, passou a ser a crise dos bancos e de seus ativos tóxicos.

Agora, é a crise das dívidas soberanas, cujos elos mais fracos foram primeiramente a Islândia, o emirado de Dubai, agora a Grécia e demais Pigs europeus. Mas dela não escapam nem os grandões: Estados Unidos, Alemanha e Japão.

Ninguém sabe qual será a fase seguinte da metamorfose. Não ajuda reafirmar que se trata de mais uma crise do capitalismo global porque não há outro sistema a colocar no lugar.

Está acontecendo num momento delicado da economia ocidental. Contra a recuperação do sistema produtivo, conspira um punhado de fatores adversos: alto nível de desemprego, envelhecimento rápido da população e perda de importância da atividade industrial.

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Os Estados Unidos têm quase 17 milhões de desempregados e teriam de recriar 8 milhões de postos de trabalho para voltar aos níveis de ocupação de 2007, imediatamente anterior à crise. A área do euro tem 15 milhões de desempregados e o Japão, 3 milhões. 

Os pequenos surtos de recuperação, especialmente nos Estados Unidos, demonstram que a produção deverá ser retomada com menos emprego de mão de obra. Não é mais a robotização que vai fechando postos de trabalho, e sim a maior utilização de Tecnologia da Informação, que dispensa áreas de almoxarifado, equipamentos e logística.

Os países de alta renda são apanhados no contrapé. Estão se dando conta de que vinham protegendo (com quase US$ 300 bilhões anuais em subsídios) a agricultura, um setor da produção que hoje emprega pouca gente.

Pode também ser questionada a conhecida compulsão dos dirigentes políticos para defender o emprego industrial, num quadro de perda de importância da indústria em relação ao setor de serviços. Por que despejar dezenas de bilhões de dólares na salvação da GM e da Chrysler se a exportação de serviços é mais promissora nos Estados Unidos?

O alto nível de desemprego vai sangrando mais a Europa, onde é generosa a distribuição de seguro-desemprego e cujo mercado de trabalho está aberto aos imigrantes. Por toda parte, vão crescendo as despesas com proteção social num quadro de queda da arrecadação e deterioração das finanças públicas.

O envelhecimento da população global piora tudo. Os cinquentões são vulneráveis às dispensas. E são os que mais recorrem aos serviços de saúde pública.

Uma das despesas óbvias a serem cortadas pelas autoridades pressionadas a reequilibrar as finanças de seus países é a da previdência social, como a Grécia já decidiu fazer, e como os Estados Unidos julgam inevitável à medida que vai engrossando a safra de aposentadorias da geração baby boom (nascidos entre 1946 e 1964).

Enfim, reagir a uma crise quando o organismo econômico e social está sadio é mais fácil. Hoje, não são apenas os tumultos financeiros que precisam ser contidos. É o organismo econômico inteiro, velho e debilitado.

O momento é bom para os emergentes, especialmente para o Brasil, que teria muito a perder se não aproveitasse as oportunidades que se abrem.

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