Momento Sputnik

Celso Ming

26 de janeiro de 2011 | 18h22

Em seu pronunciamento de terça-feira sobre o Estado da Nação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, passou o recibo de que está incomodado com o crescimento dos países emergentes e com a perda de hegemonia americana no mundo. Mas apontou saídas nem sempre compatíveis, como criação de empregos e redução do rombo orçamentário.

Obama evocou até mesmo o espírito da Guerra Fria ao dizer que este é “o momento Sputnik de nossa geração”. Para os mais jovens, convém lembrar que essa foi a época em que os Estados Unidos se deram conta de que ficaram ameaçados pelo lançamento do primeiro satélite ao redor da terra em 1957, pela União Soviética. Foi então que o país aceitou o desafio de desenvolver o Projeto Apollo, destinado a tirar o atraso na tecnologia espacial, que garantiu o primeiro pouso do homem na Lua, em 1969. Hoje, as ameaças ao futuro da América não têm conteúdo ideológico e não estão fora dos Estados Unidos. É a tecnologia ultrapassada, é a perda de qualidade na educação e é “a montanha de dívidas”.

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Obama. Metas ambiciosas (FOTO: Nicholas Kamm/AFP)

Obama propõe que os Estados Unidos se reinventem para sobreviver. Lembra que, “em uma só geração, as revoluções tecnológicas transformaram nossa forma de viver, trabalhar e fazer negócios. As indústrias siderúrgicas, que antes necessitavam de mil trabalhadores, agora podem fazer o mesmo trabalho com cem”.

Na verdade, o principal desafio é a criação de empregos, cujo sucesso não ficou nem um pouco assegurado a partir das propostas contidas no pronunciamento. Obama propõe aumento de 100% das exportações (hoje de US$ 2 trilhões por ano) em apenas quatro anos, sem indicar os meios para isso, a não ser acordos comerciais com a Colômbia, Panamá, Coreia do Sul e com o bloco da Ásia Pacífico. Parece pouco.

Promete, também, cobertura de internet sem fio de alta velocidade, em cinco anos, a 98% da população, para agilizar os negócios. Se funcionar, tende a tirar emprego. Promete, também, acesso ao trem de alta velocidade a 80% dos americanos em 25 anos e suprimento até 2035 de 80% da energia elétrica dos Estados Unidos a partir de fontes limpas. No seu conjunto, são metas aparentemente ainda mais ambiciosas do que as do Projeto Apollo.

O rombo fiscal dos Estados Unidos assume proporções perigosas. Deve ser superior a US$ 1,5 trilhão neste ano fiscal a terminar em setembro. A dívida do Tesouro americano já é de US$ 13,9 trilhões e deve avançar para US$ 20 trilhões em 2015. Obama, no entanto, sugere o congelamento de despesas públicas federais que implique uma economia de US$ 400 bilhões em dez anos.

Em contrapartida promete aplicações mais inteligentes dos recursos públicos, como redução de subsídios a certos setores (mencionou os de petróleo) e mais investimentos em infraestrutura e em Tecnologia & Desenvolvimento.

Fica para ser comprovado se os Estados Unidos despertarão de sua prostração, mas o alerta foi dado. Para nós, brasileiros, atolados em um sistema de ensino ainda mais atrasado; com uma infraestrutura ainda mais precária; uma Justiça que leva dezenas de anos para resolver pendências simples; um custo Brasil que sangra diariamente a empresa brasileira; e um governo paralisado pelos políticos do toma lá dá cá e pelos lobbies, sobra a percepção de que, a despeito de encabeçarmos a sigla Bric, a conquista do futuro é ainda mais difícil.

CONFIRA

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O gráfico mostra como evoluiu o crédito no Brasil em dois anos.

Salto e acomodação. Em 2010, as operações de crédito cresceram 20,5% e foram um dos principais fatores do forte aumento do consumo. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, avisa que, em 2011, a concessão de crédito “deve-se acomodar”. Em janeiro, até dia 12, já caiu 8% sobre as posições de dezembro. Dois são os principais fatores de desaceleração: a alta de juros e as exigências de mais capital por parte dos bancos.