Mudar para que lado?

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Mudar para que lado?

Ninguém ficou sabendo o que pode mudar, nem na política nem na equipe. Sai a tal Nova Matriz Macroeconômica, reconhecidamente perdedora. Mas entra o que no lugar? Saem o ministro Guido Mantega, como a presidente Dilma reconfirmou nesta segunda-feira, e outros figurões mais. Mas quem entra no lugar?

Celso Ming

08 de setembro de 2014 | 21h00

Já foi difícil arrancar da presidente Dilma a promessa (ou o compromisso) de que, se conduzida a um segundo mandato, providenciaria mudanças na sua política econômica e na equipe que a gerencia. Mas ficou nisso.

Ninguém ficou sabendo o que pode mudar, nem na política nem na equipe. Sai a tal Nova Matriz Macroeconômica, reconhecidamente perdedora. Mas entra o que no lugar? Saem o ministro Guido Mantega, como a presidente Dilma  reconfirmou nesta segunda-feira, e outros figurões mais. Mas quem entra no lugar?

DILMA/ENTREVISTA

Dilma. Qual é o plano? (FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADÃO)

Ninguém sabe. A candidata presidente não apresentou nenhum programa de política econômica, nem para fins eleitorais. Não chega nem sequer a imitar seu ex-dirigente Leonel Brizola que, no seu tempo, apontava o indicador para a sua própria cabeça e dizia: “O programa está aqui”.

Mesmo com a falta desse gesto, sabe-se que ela pensa e age do mesmo jeito. Durante estes quase quatro anos, foi ela própria o programa e os executores do programa. Os ministros da área econômica e a direção do Banco Central foram extensões do que quis fazer. Assim, demitir o ministro Mantega, ainda que a pedido, parece significar substituí-lo por outro que aceite fazer o que ele fez: defender bovinamente a política que lhe foi ditada.

Como a defesa automática de tudo não serviu para muita coisa – porque o que está aí está com tantos furos que precisa ser mudado -, então qual é o diagnóstico? A única justificativa para a sucessão de crescimentos mirrados do PIB foi a de que, em todos esses anos, a economia foi vítima da crise global.

Essa mesma crise global não explica a inflação acima do teto da meta, porque, nos países de economia madura, a inflação ronda o rés do chão. A escalada interna de preços teve de encontrar outra justificativa: foi atribuída ora ao aumento dos preços das commodities, ora à seca ou, até mesmo, à Copa do Mundo.

Enfim, como explicar a necessidade de mudar se não há mau desempenho da economia?

Em 2002, o então candidato Lula não se constrangeu a engavetar as críticas que seu partido fazia então à “política neoliberal” e às inspirações do chamado Acordo de Washington que marcaram a administração do seu antecessor. Assinou a Carta ao Povo Brasileiro e optou por uma política igualmente ortodoxa. Mas a presidente Dilma seria capaz de algo equivalente? Ou tudo o que faria seria dobrar a aposta, com outras pessoas e algum ajuste?

O que dá para dizer é que, se não houver mudança substancial, o risco de um desastre, que até hoje não aconteceu, tende a aumentar. Não basta capitalizar-se eleitoralmente com a condução a um segundo mandato. As contas públicas estão fortemente desequilibradas, o investimento vem em queda livre, a inflação beira o descontrole, o nível de confiança nunca foi tão baixo e os preços dos principais produtos de exportação (as commodities) começaram um período de baixa que tende a prolongar-se, sabe-se lá até quando.

Enfim, a pergunta sem resposta é: conhecendo-se quem é a presidente Dilma e seu estilo centralizador de governar, até que ponto dá para acreditar na sua disposição de mudar essa política econômica emperradora e de colocar em marcha as reformas tão cobradas nos debates e nas ruas?

CONFIRA:

ProjecoesFocus8set

No gráfico, a evolução das projeções do avanço do PIB e da inflação feitas pelas 100 consultorias e instituições do mercado ouvidas semanalmente pelo Banco Central (Pesquisa Focus).

Cada vez menos
Pela 15ª semana seguida, houve queda nas projeções do avanço do PIB deste ano. Impossível separar esse movimento do crescimento do desânimo do mercado.

Coisa combinada?
Se foi a pedido, por que o ministro Mantega ficou tão chateado com sua demissão antecipada?

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