No foco, o Fed

No foco, o Fed

Celso Ming

18 de junho de 2013 | 20h00

Poucas reuniões do comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) foram aguardadas com tanta ansiedade quanto o encontro que está agendado para esta quarta-feira.

Ninguém espera por mudanças nos juros básicos (Fed funds), que deverão permanecer ao redor de zero por cento ao ano por muitos meses mais. O que se espera nesta quarta são indicações a respeito da estratégia do desmonte da política de estímulos ao setor produtivo dos Estados Unidos. Dependendo do que for esse desmonte, a economia brasileira, no momento fortemente desequilibrada, será duramente atingida.


Bernanke. Faltam pormenores (Gary Cameron/Reuters)

Agora, há poucas dúvidas de que foi a ação do Fed dirigido por Ben Bernanke que evitou uma catástrofe econômica global de enormes proporções. Essa política consistiu em gigantescas emissões de moeda para a compra de títulos que vinham zanzando nos mercados como cachorros sem dono. O balanço do Fed já acusa uma carteira de ativos de US$ 3,3 trilhões. A cada mês, essas emissões de moeda alcançam a magnitude de US$ 85 bilhões. O objetivo dessa megaexpansão monetária é facilitar a recuperação da economia dos Estados Unidos.

Há quatro semanas, em depoimento no Congresso americano, Bernanke avisou que estudava uma lenta e gradual reversão dessa política, graças aos sinais de recuperação da economia americana. Mesmo sem quaisquer pormenores, a revelação foi suficiente para que os mercados entrassem em turbulência e começassem a antecipar a valorização do dólar e a alta dos juros. Enormes massas de dólares não só deixaram de sair dos Estados Unidos, mas começam a voltar para lá. A expectativa para esta quarta é que Bernanke avance alguma coisa mais do que de fato pretende.

A simples perspectiva desse desmonte apanha a economia brasileira vulnerável. Durante meses, o governo Dilma queixava-se de que a política expansionista do Fed provocou tsunamis e guerra cambial, ou seja, inundava o câmbio brasileiro com moeda estrangeira. E, no entanto, a simples perspectiva da mudança de ventos já provoca mais estragos por aqui do que a política do Fed mantida até agora, sem que a presidente Dilma e o ministro Mantega possam reclamar de qualquer coisa, porque foi o que pediram. A entrada de capitais no País tende a escassear, aumenta o desequilíbrio das contas externas, as cotações do dólar já dão pinotes no câmbio interno e os produtos importados, dos quais a política gastadora e consumista do governo está cada vez mais dependente, vão encarecendo em reais, produzindo mais inflação e comprometendo ainda mais o crescimento econômico.

Não há o que angustie mais o mercado financeiro do que a penumbra. Quando não sabe o que pode acontecer, deixa-se tomar pela insegurança. É por isso que, se Bernanke se dispuser a passar algumas informações adicionais sobre a dosagem e o ritmo da reversão de política, em vez de se deixarem tomar pela aflição, os mercados podem se acalmar. A conferir.

No entanto, para consertar a fragilidade da economia brasileira, o Fed não pode fazer nada. Por enquanto, o Banco Central do Brasil é a única instituição que voltou a remar na direção certa. Mas, sem uma política fiscal responsável, a política de juros pode pouco.

CONFIRA:

Vem mais. Em depoimento na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, repetiu nesta terça-feira que, a curto prazo, a inflação medida em 12 meses voltará a subir. Mas, desta vez, não foi tão enfático quanto na entrevista publicada na segunda-feira no jornal Valor, quando garantiu que não há limite para a alta dos juros básicos e que o Banco Central puxará os juros para onde tiver de puxar para controlar a inflação.

Empecilho. A Confederação Nacional da Indústria é dessas instituições que fazem o jogo do governo quando toleram a postura retrancada da Argentina no comércio exterior, contrária aos tratados do Mercosul. No entanto, nesta terça-feira, seu presidente, Robson Andrade, criticou o Mercosul como “empecilho ao desenvolvimento da indústria do Brasil”. Faltou sugestão de saída. Robson não ousou, por exemplo, pedir o rebaixamento do Mercosul a área de livre comércio para que o Brasil possa negociar acordos comerciais sem ter de carregar o peso morto argentino.