Novas escolhas

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A agora altamente provável nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e de Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento é indicação forte de que a presidente Dilma fez uma opção por um ajuste mais sério e tecnicamente mais confiável da economia

Celso Ming

22 de novembro de 2014 | 18h28

A agora altamente provável nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e de Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento é indicação forte de que a presidente Dilma fez uma opção por um ajuste mais sério e tecnicamente mais confiável da economia.

O convite feito anteriormente ao presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, reconhecidamente um crítico da política econômica que prevaleceu ao longo do primeiro mandato Dilma, já mostrava isso.

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Levy. Indicação de ajuste (Foto: PAULO GIANDALIA/ESTADÃO-4/4/2011)

Mas não está claro até que ponto a presidente está mesmo disposta a aprofundar esse ajuste. Até agora, os sinais eram de que as mudanças pretendidas seriam pouco significativas e que continuaria em vigor a fracassada Nova Matriz Macroeconômica, baseada no aumento da demanda puxado pelo avanço das despesas públicas (política econômica anticíclica) e tudo o que vinha junto: política de puxadinhos; subsídios e benefícios temporários a alguns segmentos da indústria e aos campeões do futuro; desonerações tributárias parciais… Decididamente, se fosse para obter esse mais do mesmo, a presidente Dilma teria optado por gente mais identificada com esse ponto de vista.

Joaquim Levy, formado em Chicago, ex-secretário do Tesouro no governo Lula (período Palocci), ex-secretário do Tesouro do Estado do Rio e hoje administrador de fundos de investimento do Grupo Bradesco, não esconde seu perfil ortodoxo, identificado com uma economia assentada em bases fiscais mais sólidas do que a dos membros da equipe econômica anterior. Além disso, quando ocupou cargos públicos, deu mostras de que sabe o que quer, e que não é de dobrar-se a qualquer ventania.

Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda neste primeiro mandato Dilma, deixou o cargo porque discordou do que viu. Não parece disposto a assumir suas novas funções se for para seguir pela mesma cartilha pseudokeynesiana.

Algumas análises enxergam nessa guinada, agora mais provável, a influência do presidente Lula. Vá lá. Mas não é preciso apelar para filigranas políticas para explicar as novas opções. Basta levar em conta que, no passo em que se mantinha até agora, sujeita aos mesmos fatores voluntaristas, a economia vinha se encaminhando para a insustentabilidade.

O rombo nas contas públicas tendia a aumentar; o comércio exterior, a perder força; a indústria, cada vez menos competitiva, a se esvair sem parar. O Brasil não vive mais os bons tempos de disparada dos preços das commodities. A correção das distorções exigirá solidez nos fundamentos da economia num ambiente externo de oxigênio rarefeito.

A experiência mostra que o dia a dia do exercício do poder não é coerente. A consistência da administração econômica impõe conquistas diárias. Isso significa que não basta definir antecipadamente uma estratégia e deixar que tudo siga naturalmente seu curso. Um ajuste de cunho mais ortodoxo também cobrará seu preço.

Mais realismo na administração das contas públicas implicará menos transferências de renda para a sociedade, contenção de despesas, fechamento de rachaduras e, possivelmente, maior carga tributária. E, se 2015 for mesmo um ano de ajuste, ninguém deve contar para já com a recuperação da atividade econômica nem com a mesma situação de pleno-emprego.

CONFIRA:

Reforço dos fundamentos
Se a nova prioridade é reconquistar a confiança, o primeiro passo parece ter sido dado. A presidente Dilma mostrou disposição em mudar a qualidade da política econômica. A queda das cotações do dólar e a forte alta da Bolsa mostram que os mercados entenderam que a proposta é reforçar os fundamentos da economia e não mais distribuir band-aids. Falta saber qual será a profundidade e a duração do ajuste.

Com ou sem tranco?
Até agora, a presidente Dilma vinha indicando aversão a trancos. Prefere caminho suave. O problema é que terapias gradualistas prolongam a doença e as distorções da economia. Se é para produzir confiança e resultados mais rápidos, então é melhor ouvir os conselhos de Maquiavel e fazer o mal de uma vez.

Autonomia
Falta saber até que ponto o Banco Central terá autonomia para fazer o que tem de fazer. Isso logo se verá a partir de suas análises sobre a situação das contas públicas.

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