Novo afrouxamento?

Celso Ming

21 de junho de 2011 | 19h15

Há apenas seis meses, os analistas perguntavam quando, afinal, começaria a tal estratégia de saída dos grandes bancos centrais, ou seja, quando teria início a temporada de retirada do nunca visto volume de moeda que inunda a economia global. Mas as coisas mudaram. Hoje, as incertezas aumentaram e a pergunta prevalecente não é mais sobre o início do enxugamento, mas se o despejo de dinheiro não vai aumentar.

Segunda-feira, a agência Bloomberg avisava que cresceu o risco de nova crise global, equivalente ou pior do que a que aconteceu em 2008 com o naufrágio do Lehman Brothers. A capa do último número da revista The Economist pergunta se haverá um novo derretimento (meltdown) da economia global.

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Bernanke. Deu certo (FOTO: DOUG MILLS/THE NEW YORK TIMES)

Pela primeira vez em mais de cem anos, as autoridades dos Estados Unidos admitem a possibilidade de um calote, ao menos temporário, da dívida americana – se o Congresso não autorizar o aumento do endividamento que hoje é de US$ 14,3 trilhões.

Nos próximos oito dias, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) completa o segundo programa de afrouxamento quantitativo (QE2, na sigla em inglês), que consistiu em despejar mais US$ 600 bilhões nos mercados, mediante a recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Apenas para relembrar: o primeiro programa desse tipo, o QE1, aconteceu entre novembro de 2008 e março de 2010 e recomprou US$ 300 bilhões em títulos públicos. As principais consequências dessas decisões estão razoavelmente mapeadas: desvalorização do dólar, puxada para cima dos preços das commodities e o surgimento de novos focos de inflação global. O presidente do Fed, Ben Bernanke, está negando o que alguns analistas apontam como inevitável: o anúncio do QE3.

Além das enormes dificuldades para cobrir o rombo orçamentário da União, a economia americana enfrenta um desemprego de 9,1% ao ano, que não dá sinais de regressão, com a agravante de que nada menos que 45% dos desempregados estão nessa situação há mais de seis meses – o que caracteriza alto grau de desocupação estrutural. Além disso, a atividade econômica dos Estados Unidos segue patinando em torno de um crescimento anual de apenas 2,5%.

Quer isso dizer que o novo afrouxamento quantitativo não foi suficiente para reativar a economia americana? Bernanke adverte que não se pode julgar a eficácia do programa nesses termos. Ele prefere dizer que o QE2 foi desenhado para evitar a recaída na recessão (double dip), o que foi obtido, e não para resolver todos os problemas.

São declarações que não afastam a possibilidade do lançamento de um QE3. Ao contrário, reforçam-na, se o que vier aí for mesmo um novo aprofundamento da crise global – que alguns julgam inevitável.

Do ponto de vista da economia do Brasil, essa superliquidez global foi o principal fator que provocou o enorme desembarque de moeda estrangeira, cujo maior efeito foi a valorização do real (queda do dólar) e a perda de competitividade do setor produtivo brasileiro. E foi o que levou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a denunciar a deflagração de uma “guerra cambial”. Se vier um QE3, num ambiente de clara melhora da percepção global sobre a consistência da economia, o afluxo de dólares para o País será ainda mais intenso.

CONFIRA

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Tombo. Aumentam os indícios de que a inflação vai sendo dominada. O avanço do IPCA-15 de junho já é menos da metade do registrado no mês anterior: 0,23% contra 0,70%. E a segunda prévia do IGP-M ficou negativa (-0,21%) no período de 30 dias terminado em 15 de junho.

Ainda falta. Mas não dá ainda para contar com a vitória. O mercado de trabalho e o crédito continuam aquecidos. A inflação dos serviços segue elevada. E a queda dos preços dos combustíveis já deu o que tinha de dar.