O Brasil de Mantega

O Brasil de Mantega

Mantega parece não ter tomado conhecimento do rombo orçamentário deste ano nem da ameaça real de rebaixamento da qualidade da dívida do Tesouro pelas agências de avaliação de risco

Celso Ming

30 Dezembro 2014 | 21h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, divulgou nesta terça-feira uma espécie de testamento de 140 páginas, com textos e gráficos multicoloridos, em defesa da excelência da política econômica dos últimos oito anos, período em que permaneceu no comando do Ministério da Fazenda do Brasil.

O que está lá conta maravilhas. Logo de cara aparece uma espécie de roda mágica que aponta oito anos com tudo de bom, desde crescimento econômico e queda no desemprego até inflação sob controle, redução da dívida pública, administração perfeita das contas públicas e redução das desigualdades – como se não fosse necessária a atual virada da política econômica.

Mantega. Paisagem rósea

Mantega. Paisagem rósea (FOTO: Ueslei Marcelino/Reuters)

Quem leu a entrevista do futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, publicada no jornal Valor Econômico da última segunda-feira, na qual também transparece um diagnóstico da economia, se impressiona com como esses dois mundos, o de Mantega e o de Levy, não guardam nenhuma relação entre si. Para Mantega, o País está no caminho inexorável do crescimento sustentado; para Levy, será necessário um sério ajuste para que não sobrevenha o descarrilhamento.

Mantega parece não ter tomado conhecimento do rombo orçamentário deste ano nem da ameaça real de rebaixamento da qualidade da dívida do Tesouro pelas agências de avaliação de risco. Assegura que os fundamentos da política fiscal exibem solidez; Levy diz o contrário, fala da franca deterioração das contas públicas que exigem “reorientação fiscal, que deixa de ser uma simples opção para ser necessidade”.

Mantega continua recitando seus mantras prediletos. No documento divulgado nesta terça-feira reafirma que os programas de expansão monetária das economias avançadas (na verdade, apenas dos Estados Unidos e do Japão – e não da área do euro nem da Grã-Bretanha) provocaram a guerra cambial que ameaçou afundar a indústria brasileira. Também avisa que um dos principais fatores responsáveis pelo baixo crescimento econômico dos últimos quatro anos se deve à crise global.

E se queixa, como outras vezes se queixou, “das mais severas secas da história recente”. No entanto, e isso não é pinçado pela análise de Mantega, apesar da severidade da seca, o agronegócio, que em princípio deveria ter sido castigado pela estiagem, apresentou excelente desempenho. Cresceu 30% nos últimos quatro anos, consideradas aí as estatísticas de produção do IBGE.

Mantega tece louvações à política anticíclica adotada desde 2009, a que também denomina nova matriz macroeconômica. Para enaltecer seus resultados trabalha com as médias estatísticas de períodos que em geral começam em 2006 e, assim, abrangem também os tempos de bonança da economia global e dos picos históricos dos termos de troca.

No entanto, os resultados recentes dessa política anticíclica são decepcionantes quando se considera a evolução das contas públicas, do crescimento econômico, da inflação e das contas externas. Não fosse isso, a presidente Dilma não teria se dado ao trabalho de mudar a equipe e sua filosofia de trabalho. Se é para produzir arrumação e ajuste é porque as coisas estão desarrumadas e desajustadas. Mas vai que o ministro Mantega não concorda com isso.

CONFIRA:

Ibovespa29Dez

A trajetória da Bolsa ao longo de 2014 seguiu a percepção do mercado financeiro sobre a situação da economia.

Outras cores

A revista inglesa ‘The Economist’ não usa as mesmas cores utilizadas pelo ministro Mantega para retratar a economia brasileira. Eis um trecho da matéria da ‘Economist’: “E as políticas de Dilma do primeiro mandato mostraram-se desastrosas: uma combinação de frouxidão macroeconômica e intromissão microeconômica destinada a estimular o crescimento, mas que minou as contas públicas e a sua credibilidade”.