O câmbio e a indústria

O câmbio e a indústria

O problema de um certo número de dirigentes da indústria é que pretendem ditar as políticas parciais, sem enxergar o todo

Celso Ming

05 Fevereiro 2015 | 21h00

O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, está pregando agora a plena flutuação do câmbio: “Libera o câmbio e diminui a carga tributária e aí, com certeza, a competitividade (da indústria) vai aumentar”, disse nesta quinta-feira à Agência Estado. É um tema que pede alguma análise.

Velloso só disse isso porque trabalhou com os faróis baixos. Ele quer livre flutuação quando a cotação do dólar tende a subir, como agora. Quando acontece o oposto, quer intervenção do Banco Central (BC).

Durante oito anos, o BC fez o contrário do que está fazendo hoje. Comprou moeda estrangeira no câmbio interno para impedir a derrubada das cotações e a supervalorização do real, o que puxou as reservas externas a US$ 370 bilhões. A Abimaq aplaudiu a intervenção e até quis mais.

Velloso. E a visão do todo? (FOTO: ADRI FELDEN)

Velloso. E a visão do todo? (FOTO: ADRI FELDEN)

Hoje, o BC usa o câmbio para combater a inflação, o que não deixa de ser política distorcida, porque este conserto, ou seja a contenção das cotações do dólar para impedir a disparada da inflação, não procura a solução.

A inflação está dando esses pinotes porque o governo gastou e ainda gasta demais. O despejo desses recursos na economia vem aumentando a demanda, sem contrapartida de oferta. O resultado é a inflação saindo pelo ladrão – como se confirmará, nesta sexta-feira, com a divulgação do IPCA de janeiro pelo IBGE.

Há outros fatores que explicam a forte flutuação do câmbio. Entre 2008 e 2014 a grande entrada de dólares no País foi consequência da política de relaxamento quantitativo do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que emitiu US$ 4,5 trilhões em seis anos, para comprar títulos. Uma fração desses dólares veio ao Brasil e forçou a política anterior.

Agora, a ação do BC tomou direção oposta porque a deterioração das condições da economia, conjugada com a baixa das matérias-primas, provocou relativa escassez de dólares no câmbio interno. Mas, outra vez, a vulnerabilidade às flutuações do câmbio do Brasil deve-se aos desequilíbrios na economia do País e não no câmbio em si.

O problema de José Velloso e de um certo número de dirigentes da indústria é que pretendem ditar as políticas parciais, sem enxergar o todo.

A carga tributária é uma enormidade? Claro que é. A infraestrutura brasileira é uma vergonha? Sim. Grande parte da baixa competitividade da indústria tem a ver com as políticas equivocadas adotadas até agora? Certíssimo. Então, a recuperação da indústria começa com a eliminação das distorções e com o fortalecimento dos fundamentos da economia e não com a distribuição de pacotes de bondades tributárias e de controles artificiais do câmbio e de outros preços, que as lideranças da indústria sempre reivindicaram e sempre aplaudiram.

CONFIRA:

Popuança

Em janeiro, os depósitos em caderneta de poupança foram menores do que as retiradas.

Caderneta
Há certa sazonalidade nesse movimento. Em dezembro, o assalariado deposita parte do 13º salário na caderneta e, em janeiro, precisa sacar para enfrentar as despesas novas, como impostos (IPVA, IPTU), mensalidades escolares e pagamento de despesas que vencem no cartão. Mas não é só isso. A crise e a inflação estão pressionando mais o orçamento do consumidor, que tende a recorrer aos saques da poupança para pagar suas contas.