O câmbio muda na moita

Celso Ming

20 de setembro de 2011 | 19h45

Depois de dezembro de 2004, a política cambial mudou várias vezes. Mas, de lá para cá, o governo já não anuncia mais seus objetivos.

A partir de seu piso, obtido em 26 de julho, a cotação do dólar já aumentou 16,8%. Apenas em setembro (até esta terça-feira), a alta foi de 12,5%. E não há nenhuma indicação de que a atual maré altista esteja próxima de ser revertida.

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Em 2004, o Banco Central anunciou que passaria a comprar dólares no câmbio interno para cumprir dois objetivos: amontoar reservas e impedir a excessiva volatilidade do câmbio.

Depois de 2009, o Banco Central continuou suas compras quase diárias de dólares não mais para fazer reservas, porque os US$ 210 bilhões haviam se mostrado suficientes para transformar o impacto da maior crise desde os anos 30 numa “marolinha”. O Banco Central não atuou tampouco para neutralizar a excessiva volatilidade das cotações. Sua meta óbvia passou a ser impedir uma valorização maior do real ante outras moedas estrangeiras (queda da cotação do dólar). Só que essa mudança de política não foi anunciada nem antes nem depois. Os objetivos simplesmente mudaram na moita, sem que o Banco Central tivesse deixado claro o que passou a pretender.

Neste ano, o governo Dilma deu várias indicações de desconforto com a forte tendência a novas valorizações do real e tomou providências destinadas a reduzir a entrada de dólares, que culminaram, em julho, com a taxação de um IOF de até 25% sobre negócios com derivativos cambiais. O Banco Central, por sua vez, seguiu comprando moeda estrangeira, mas não se dignou a avisar que já não pretendia nem acumular reservas nem acabar com a grande volatilidade. Desde o final de julho, quando o governo completou uma série de intervenções e as cotações reverteram sua tendência anterior, a volatilidade tem sido enorme. No entanto, o Banco Central não teve interesse em atuar para estancar a volatilidade. E há duas semanas já não compra mais moeda estrangeira. Poderia, por exemplo, ter vendido dólares de suas reservas para estabilizar as cotações, mas não agiu nessa direção.

Depois de demonstrar suficientemente que não queria a cotação do dólar abaixo de R$ 1,50, o governo Dilma não indicou se trabalha com um teto das cotações. O momento parece inteiramente atípico, porque a tendência de longo prazo continua sendo de valorização do real. Nenhum dos fatores que derrubaram a cotação para a casa de R$ 1,55 foi removido. As reservas, hoje de US$ 352 bilhões, continuam passando segurança na economia brasileira para o investidor; o déficit em Conta Corrente neste ano dificilmente passará dos US$ 60 bilhões ou 3% do PIB; o Investimento Estrangeiro Direto deverá alcançar US$ 70 bilhões (superior ao próprio déficit em Conta Corrente); os juros básicos estão em queda e ajudam a reduzir o afluxo de moeda estrangeira destinada a tirar proveito da alta remuneração do setor financeiro interno. E, mais do que isso, se o Banco Central concluir que a alta do dólar atrapalha a briga contra a inflação, poderá vender uma pequena parte de suas reservas no câmbio interno e, assim, desencorajar eventuais apostas na forte desvalorização do real.

Mas, decisivamente, as autoridades não anunciam mais o que pretendem.

CONFIRA

Ser ou não ser capitalizado. Na semana passada, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, desmentiu que os bancos europeus precisassem de reforço de capital de mais de 200 bilhões de euros, como o relatório interno do próprio FMI anunciara. E, nesta terça, o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchar, avisou, em entrevista à rede de TV France 24, que é essencial aumentar o capital dos bancos europeus.

Mantega reforça. Também nesta terça-feira, o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, afirmou à agência Dow Jones que os bancos europeus necessitam, sim, ser capitalizados.

Neymar y la deuda. O principal jornal da Espanha, El País, em artigo assinado por Joaquín Estefanía, afirmou em sua última edição que a disputa por Neymar pelas principais equipes de futebol da Espanha e, ao mesmo tempo, a disposição dos Brics de ajudar os países do euro a pagar suas dívidas são “uma contradição” e “um sinal do nosso tempo”.