O carro é o novo tabaco?

finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

O carro é o novo tabaco?

Antes símbolo de poder, de status e de bem-estar, o automóvel se tornou um trambolho, não só porque os gases emitidos nos escapamentos contribuem para o aumento da poluição, mas também porque está travando as cidades, agora tomadas por gigantescos congestionamentos

Celso Ming

27 de setembro de 2014 | 16h00

Texto atualizado às 15h de 29/09, para a correção de informações

A indústria automobilística do Brasil enfrenta hoje duas crises simultâneas. A primeira é a que envolve queda das vendas internas, derrubada das exportações, acumulação de estoques e concessão de férias coletivas antecipadas para reduzir a atividade. É um problema de natureza conjuntural.

A outra, provavelmente bem mais séria, parece extrapolar o Brasil. É o crescimento da rejeição ao automóvel, que lembra o que aconteceu com a indústria do tabaco. Trata-se de uma encrenca estrutural.

O problema interno da quebra de produção e das vendas é consequência do baixo crescimento do PIB (e, portanto, da renda). Tem também a ver com estímulos inadequados distribuídos pelo governo Dilma, que anteciparam compras, mas não criaram mercado, e com a crise de pagamentos da Argentina, para onde vão – ou iam – 75% das exportações de  automóveis brasileiros.

Não são problemas de fácil solução porque exigem ajustes importantes nos fundamentos da economia, que dependem do governo que assumir o comando em janeiro. E, também, esperam pela reversão da crise de pagamentos da Argentina, que não tem prazo para acontecer.

A questão estrutural é mais complexa. Antes símbolo de poder, de status e de bem-estar, o automóvel se tornou um trambolho, não só porque os gases emitidos nos escapamentos contribuem para o aumento da poluição, mas também porque está travando as cidades, agora tomadas por gigantescos congestionamentos que condenam seus passageiros a permanecer engaiolados durante boa parte do dia. (Veja abaixo o gráfico da evolução dos congestionamentos em São Paulo).

Lentidao26set

O carro elétrico parecia a solução, mas, por enquanto, não ajuda a resolver nem o problema ambiental nem o do travamento das cidades. Ele só não contribuiria para as emissões de CO2 se os gases liberados pelos escapamentos dos veículos não saíssem pelas chaminés das termoelétricas, como em outras oportunidades esta Coluna já comentou. Isso depende da matriz energética de cada país.

Onde a energia elétrica é preponderantemente produzida pela queima de combustíveis fósseis (carvão e derivados do petróleo), o carro elétrico continua poluindo quase do mesmo jeito. No mundo, 81,6% da energia elétrica é produzida por fontes poluentes (veja o gráfico abaixo).

EnergiaOrigem

O governo federal acaba de dar incentivos especiais para a importação de carros híbridos, aqueles que têm motor a combustão com auxílio de sistema de tração elétrica (sem recarga externa), mas não está disposto a estender essas vantagens para o carro elétrico. A razão dessa discriminação é conhecida: não há no Brasil disponibilidade de energia elétrica que atendesse ao consumo crescente de veículos dotados de motores desse tipo.

O carro elétrico também não resolve o outro problema: o dos congestionamentos de trânsito. O governo da Noruega concedeu estímulos fiscais aos compradores de veículos elétricos e o resultado foi um enorme congestionamento nas ruas das grandes cidades produzido exatamente por carros elétricos, que lá podem, inclusive, andar nas faixas antes exclusivas para ônibus.

Movimentos oficiais de aversão ao automóvel estão acontecendo também por aqui. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é a primeira autoridade do PT, partido nascido no ninho das montadoras, a adotar políticas de desestímulo ao automóvel. São cada vez maiores as restrições para a circulação de veículos em São Paulo.

O prefeito criou nada menos que 359 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus e agora está implantando mais 78,3 quilômetros de ciclovias que até 2016 devem somar 400 quilômetros. Além disso, assinou um Plano Diretor que restringe as garagens dos edifícios novos a apenas uma vaga por apartamento.

É uma política de conceito que, se for amplamente adotada, terá como resultado o alijamento crescente do automóvel nas grandes cidades.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: