O contra-ataque

O contra-ataque

Celso Ming

23 de agosto de 2013 | 20h00

O Banco Central abriu, finalmente, sua caixa de ferramentas para conter a escalada das cotações do dólar.

Agora, são leilões diários de US$ 500 mil em swaps cambiais (equivalentes à venda de dólar no câmbio futuro), mais a entrega de até US$ 1 bilhão todas as sextas-feiras em leilões de linha (para ser obrigatoriamente revendido ao Banco Central na data combinada). É uma ação mais firme para oferecer previsibilidade e proteção (hedge) ao mercado exposto à alta volatilidade cambial. E o mercado respondeu, como se vê no gráfico.

Um dos recados é de que, na percepção do Banco Central, o dólar foi longe demais (overshooting). Poderia não significar muito porque, afinal, indicações da mesma natureza foram repassadas sucessivamente ao mercado quando as cotações chegaram a R$ 2,10, a R$ 2,20 e a R$ 2,30 por dólar. Mas, desta vez, a estratégia pretendeu ser mais convincente.

Embora as autoridades avisem que mais virá se necessário, é cedo para saber se o jogo foi virado. Se neste ano o Banco Central já colocou no mercado US$ 45 bilhões em swaps, num período em que a turbulência pode não ter chegado ao seu clímax, o programa de mais US$ 60 bilhões corre o risco de ser insuficiente.

Nas próximas semanas, o mercado deverá testar o novo teto tolerado pelo Banco Central. No momento, o governo parece mais incomodado com o impacto da alta dos preços do dólar sobre os custos das empresas e sobre a inflação.

No entanto, as questões de fundo continuam intocadas. Aí se concentram as dúvidas sobre a eficácia da ação a longo prazo. Entre essas questões de fundo não estão os acenos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para reverter a atual política monetária expansionista (emissões de dólares). Estão equivocadas as escolhas do governo Dilma, que tornaram a economia vulnerável (mais do que outros emergentes) até mesmo a alterações suaves no nível de liquidez global.

Nesta sexta-feira, por exemplo, saíram as Contas Externas de julho e o que se viu foi um alargamento do rombo em 12 meses nas Transações Correntes, de 2,4% do PIB em dezembro de 2012 para 3,4% sete meses depois, com perspectiva a se elevar ainda mais (veja o Confira). Aumentam as dificuldades da economia para encontrar cobertura relativamente mais barata e mais eficiente para o déficit externo.

Mas esse déficit, conjugado ao crescimento pífio e à inflação acima de 6% ao ano, é apenas o resultado. Por trás de tudo está o excesso de consumo interno sem contrapartida no aumento da oferta, fator que vem pressionando tanto as importações como as despesas com serviços (transportes, turismo, juros da dívida externa, etc.)

O excesso de consumo, por sua vez, tem como causa principal o desequilíbrio e a baixa transparência das contas públicas, que o Banco Central chama de “política fiscal expansionista”. Enfim, a rigor, não há um problema cambial no Brasil. O que há é uma desarrumação nos fundamentos da economia que o governo Dilma não ousa corrigir porque teme que seus custos colocariam em risco seu objetivo maior que é a recondução à Presidência nas eleições de 2014.

CONFIRA:

Esta é, em sete meses, a evolução do déficit em Transações Correntes do Brasil com o exterior (que engloba Balança Comercial, Balança de Serviços e Transferências Unilaterais).

Cobertor curto. Os números acima apontam para uma rápida deterioração das contas externas. O déficit dos primeiros sete meses do ano é 81% maior do que o de igual período de 2012. E o de julho, 141% maior do que o de julho do ano passado. Isso significa que, neste ano, a entrada de investimentos estrangeiros, de cerca de US$ 60 bilhões, não vai ser suficiente para cobrir o déficit, de cerca de US$ 79 bilhões.

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