O Copom decide

Celso Ming

20 de julho de 2010 | 19h18

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, define nesta quarta-feira, 21, o novo nível dos juros. Mas não está tão claro o que alguns passaram a exigir há poucas semanas, que os juros devam parar de subir ou, até mesmo, devam cair. Terça-feira, a aposta majoritária do mercado financeiro passou a ser a de um aumento dos juros de 0,5 ponto porcentual ao ano, um degrau mais baixo do que o de junho.

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A economia brasileira ingressou agora na fase de desaceleração. A produção continua aumentando, mas a ritmo mais baixo do que os 9% ao ano registrados há alguns meses. Isso não significa ainda que esteja em curso um ajuste em direção ao crescimento mais sustentável da economia. A indústria reduziu sua marcha muito mais em consequência da retirada dos incentivos tributários (suspensão da redução de impostos) do que em consequência da queda consistente do consumo. É natural que a indústria de veículos, por exemplo, diminua suas vendas depois de uma longa temporada de antecipação de compras. No entanto, o crédito ao consumidor e às empresas continua farto e pode puxar o consumo em outros segmentos.

É verdade, também, que a marcha da inflação está contida em comparação com o que acontecia no início do ano. A evolução do IPCA de junho em relação ao mês anterior, por exemplo, foi zero e os números do IPCA-15 divulgados nesta terça sugerem que julho registre inflação negativa, em decorrência da queda dos preços dos alimentos. Conforme se confirma pela pesquisa Focus do Banco Central, o mercado já trabalha com números mais baixos do que prevaleciam há sete semanas, em direção ao centro da meta de inflação, que é de 4,5% neste e no próximo ano. E essa virada das expectativas é, por sua vez, um elemento importante que o Banco Central terá de considerar.

Mas há outro dado inquietante que o Copom também terá de avaliar cuidadosamente. Trata-se do impressionante aumento das importações, de 45,8% no período de 12 meses terminado na terceira semana de julho sobre igual período do ano passado. Não dá para dizer que estão sendo feitas à custa de uma retração das exportações, porque estas também estão crescendo. E estão crescendo 33,9%, uma enormidade num mercado externo açoitado pela crise, embora num ritmo menor do que as importações. A relativa valorização do real diante do dólar, quase sempre apontada como causa dos desequilíbrios comerciais, é insuficiente para explicar a disparada das importações porque as exportações seguem muito fortes.

O Brasil é o único país emergente cujas importações estão crescendo a essas proporções. A enorme esticada, que continua em ascensão, pode ser explicada pelo vigor do consumo interno. É, por sua vez, fator que também concorre para a retração da inflação interna, na medida em que os mercados externos estagnados estão saturados de mercadorias e agora concorrem para a redução global dos preços.

Por enquanto, as importações atendem ao robusto consumo interno. Mas podem ser vistas como excessiva dependência de fornecimento externo, numa conjuntura em que o investimento brasileiro, ainda que mais alto, continua não sendo suficiente para garantir um crescimento sustentado da ordem de 5% ao ano.

Entenda

Os preços caem. Primeiramente, um conceito. O IPCA-15 que veio nesta terça-feira negativo em 0,9% difere do IPCA apenas quanto ao período de pesquisa de preços para efeito de medir o custo de vida. A amostra de preços é a mesma. Teoricamente, o IPCA mede a inflação mensal do início ao fim do mesmo mês, em comparação com igual período do mês anterior. Enquanto isso o IPCA-15 mede a evolução dos preços do dia 15 de um mês ao dia 15 do mês seguinte.

Raio X. Assim, o IPCA-15 passa um raio X da inflação no meio do mês e dá uma ideia melhor da trajetória no curto prazo. Os números divulgados sugerem que a inflação de julho (do dia 30 do mês anterior a 30 do seguinte), que somente será divulgada em agosto, ficará negativa.

Alimentos mais baratos. Como já avançado no texto acima, essa inflação negativa se deve a dois fatores: à queda dos preços dos alimentos e à entrada de importados mais baratos em reais.

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