O enigma do emprego

Celso Ming

21 de junho de 2012 | 20h00

Os economistas vão agora dedicar-se a sessões de contorcionismo cerebral para tentar explicar como é possível a convivência no Brasil do atual raquitismo produtivo com o forte crescimento do emprego.

Pois foi o que ontem mostraram os números do IBGE. Enquanto o PIB executa um medíocre voo de galinha (crescimento ao redor de 2% em 2012), o desemprego em maio ficou em apenas 5,8%, o menor para meses de maio. A mais baixa contratação de pessoal com carteira assinada ocorrida em maio (dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged) não contraria a situação excepcional do mercado de trabalho.

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Para os padrões do Brasil, se não é de pleno emprego, este nível de ocupação está próximo disso. A escassez de mão de obra, especialmente da especializada, já é percebida em praticamente todos os setores. E vem refletida no aumento da renda real efetiva que, no período de 12 meses terminado em maio, avançou 6,9%, bem acima da evolução do PIB e alguma coisa acima da inflação (de 5,05% no período).

A aparente anomalia de emprego forte numa economia fraca não é apenas intrigante questão acadêmica; tem importantes implicações práticas. Se a criação de postos de trabalho já está tão vigorosa num quadro de desempenho decepcionante do PIB, o que acontecerá se o governo conseguir puxar a atividade econômica para a velocidade de 4% a 5% ao ano, como está prometendo?

Mas como explicar a anomalia? Alguns especialistas vinham levantando a hipótese de que a fatia da População Economicamente Ativa (PEA) pode estar encolhendo no Brasil devido a novidades demográficas: queda do índice de natalidade, mais gente estudando por mais tempo, crescimento das aposentadorias, etc. Mas o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman observa, em boletim divulgado por sua consultoria, que a situação do emprego no Brasil é tanto mais surpreendente quando se leva em conta que a parcela da população que trabalha ou procura emprego (PEA) em relação ao total da população brasileira nunca foi tão alta (57,6%).

Outros economistas olham para o preparo da mão de obra e raciocinam que as novas contratações tiveram de ser feitas em camadas de baixa qualificação. Em consequência disso, a produtividade do trabalho diminuiu, pensam esses especialistas. Isso significaria que esteja sendo preciso mais gente para produzir as mesmas tarefas. Schwartsman admite que isso pode estar acontecendo na indústria, mas não nos outros setores.

Outra hipótese é a de que as Contas Nacionais do IBGE no âmbito do setor mais dinâmico e maior empregador de mão de obra, o de serviços, enfrentem algum problema metodológico e não reflitam corretamente o avanço da produção. Nesse caso, o PIB pode ser bem mais alto do que vem sendo apontado.

Seja como for, nunca os níveis de emprego foram tão altos como os alcançados nestes últimos 12 meses no Brasil. E isso não deixa de ser um dado positivo quando comparado com a enorme destruição de postos de trabalho no resto do mundo, especialmente nos países ricos.

CONFIRA

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A prévia da inflação (IPCA-15) de junho, retratada no gráfico acima, trouxe duas indicações positivas. A primeira é a de que a evolução do custo de vida está em desaceleração: a variação do IPCA-15 de junho foi de apenas 0,18%, enquanto a de maio foi de 0,51%. A outra é a de que essa desaceleração alcança praticamente todos os setores, com exceção do grupo dos produtos não alimentícios. A inflação do mês pode não passar de 0,2%.

Aumento da gasolina. Esse bom desempenho abre mais espaço para que o governo reajuste imediatamente os preços dos combustíveis, como já foi admitido pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.