O lucro do Banco do Brasil

Celso Ming

26 de fevereiro de 2010 | 20h06

O lucro de R$ 10,1 bilhões obtido pelo Banco do Brasil no ano passado não foi notável apenas por ter sido obtido num ano de profunda crise financeira, em que foi prejudicado o crédito, a principal fonte de renda dos bancos globais. Foi notável, também, por ter sido recorde histórico e por ter sido o maior de todos os bancos brasileiros, incluídos aí os maiores bancos privados que, em anos anteriores, bateram o Banco do Brasil nesse quesito.

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Não se pode argumentar que esse resultado se deve apenas às condições privilegiadas com que operam os bancos estatais. Eles, especialmente o Banco do Brasil, de fato detêm as principais contas da administração pública, trabalham em bases cativas com as contas correntes dos funcionários públicos ativos e aposentados e ainda contam com linhas oficiais de crédito sobre as quais não têm de recolher depósitos compulsórios.

Essa situação privilegiada sempre ocorreu e, no entanto, até agora não havia levado o Banco do Brasil a obter lucros tão impressionantes quanto os apresentados agora.

Também não tem cabimento afirmar que, em boa parte, esse resultado deva ser visto como pirotecnia contábil destinada a preparar o terreno para a subscrição recorde de capital da empresa aqui e no exterior, tal como projetada pela diretoria e pelo governo federal.

A avaliação do desempenho do Banco tem de ser procurada em outros fatores.

O primeiro deles foi acertadamente festejado pelo governo federal e pela diretoria do próprio Banco do Brasil. Foi ter feito a escolha certa num momento adverso, no auge da crise. Em vez de se agachar defensivamente, como aparentemente pretendia a diretoria anterior, a instituição respondeu à altura à política anticíclica determinada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e assumiu postura agressiva de atendimento ao mercado interno.

Atirou-se ao crédito, ao aumento de participação no mercado, na contramão da postura defensiva assumida pelos bancos privados. Esse resultado não é outro senão o efeito da maior agilidade e da determinação em proporção adequada assumida ao longo do ano passado.

A segunda observação que tem de ser feita é a de que esse superlucro é também consequência da cobrança de spreads (diferença entre o custo do dinheiro para o banco e seu retorno nas operações ativas), juros e tarifas escorchantes cobradas dos seus clientes. Nisso, o Banco do Brasil pouco ou quase nada se diferencia dos outros bancos brasileiros, que até agora não têm contribuído suficientemente para a derrubada de um dos principais componentes do custo Brasil, que é o elevado custo financeiro.

O sistema bancário nacional opera em bases oligopolísticas e impõe a seus clientes preços inteiramente fora dos padrões internacionais, mesmo levando-se em conta o histórico e as peculiaridades do mercado financeiro interno. E isso vale tanto para os bancos privados quanto para os bancos oficiais.

Isso significa que os bancos oficiais ainda têm um longo caminho para avançar de maneira a desempenhar uma de suas principais funções, que é estabelecer um ambiente de sadia competitividade no mercado.

Confira

Resgate líquido – Os últimos números do Banco Central que registram a movimentação dos saldos das cadernetas de poupança são do dia 22. Eles mostram um resgate líquido de 0,2% sobre as posições de final de janeiro, de R$ 323,2 bilhões.

Não dá para dizer que em fevereiro os saques sobrepujaram os depósitos porque, a cada última semana de mês, os saldos tendem a crescer.

O que dá para dizer, também desta vez, é que até agora não houve a revoada de depósitos das cadernetas para as outras aplicações financeiras que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tanto temia.

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