O ministro e a cuca

O ministro e a cuca

Celso Ming

29 de junho de 2013 | 17h00

Às vezes, os curtos-circuitos de comunicação são causados apenas por uma diferença de tom. Mas, no caso do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é mais do que isso. Ele aparentemente enxerga diferente dos demais.

O tom é essencial na comunicação. Muitas vezes, é mais importante do que o conteúdo do que é dito. Tomemos as nossas tradicionais cantigas de ninar. Quem se apega apenas ao significado das letras fica horrorizado. É a cuca que está logo ali, pronta pra pegar o nenê; é o pai que está na roça e a mãe, também longe, no cafezal, uma situação de fato que aponta para uma solidão inexorável; é o assustador boi da cara preta, também predador de pequenos. Essas coisas foram, e ainda são, marteladas sobre almas desprotegidas… E, no entanto, a criança dorme. Por quê? Porque, também aí, o tom aconchegante prevalece sobre os horrores da letra.


Mantega. Tom e conteúdo (FOTO: André Dusek/Estadão)

É por esse motivo, também, que as análises de economia e política precisam, em primeiro lugar, perseguir o tom correto, sob pena de pôr a perder o essencial.

Um dos problemas do ministro Mantega na comunicação com o público é o tom inadequado com que diz as coisas. Não dá para ignorar os problemas, especialmente quando o País e a economia, como agora, estão alvoroçados, levando todos a perdas de renda e de patrimônio financeiro.

Mas as intervenções do ministro Mantega apontam para deficiências de conteúdo. No pronunciamento feito quarta-feira na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, Mantega disse coisas que só ele vê. Aí vão alguns exemplos.

Ele garantiu que a inflação está caindo e que vai convergir para a meta ainda neste ano. Pode ser que, de um mês para outro, a inflação fique mais baixa. Mas é inevitável que pelo menos “no curto prazo”, como aponta o Banco Central, a acumulada em 12 meses estoure o teto da meta. A projeção do Banco Central para a inflação deste ano é 6,0%, enquanto a meta é 4,5%.

Depois de passar meses a fio prometendo entregar um crescimento do PIB em 2013 em torno de 4,0% a 4,5%, Mantega agora avisa que o País vai crescer neste ano “mais do que em 2012”, como se fosse feito extraordinário crescer mais do que o mísero 0,9% obtido então. Hoje, sabemos, vai ser difícil o PIB avançar neste ano algo acima de 2%.

Finalmente, o ministro Mantega deitou louvação no “novo mix de políticas econômicas” colocado em prática durante o governo Dilma. Esse mix é um fracasso. Não garante crescimento sustentável do PIB acima de 3%; produz inflação que, no momento, perfura o teto da meta; provoca séria deterioração das contas externas; não sustenta os juros baixos, perseguidos tão obsessivamente; e, finalmente, é responsável por avarias graves nas contas públicas. Esse é outro ponto do qual discorda o ministro Mantega. Para ele, o equilíbrio orçamentário é exemplar, embora a percepção dos que se debruçam sobre o assunto seja a de que a política fiscal é uma bagunça, como até mesmo o ex-ministro Delfim Netto tem advertido.

Fica difícil a criança dormir ao ouvir cantigas assim.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o mais importante do País.

Mais que suficiente. Mesmo com a forte recuperação e com a boa incidência de chuvas ao longo deste mês, que em geral é mais seco, o nível dos reservatórios da região é o mais baixo desde 2001, às vésperas do racionamento de energia elétrica. De todo modo, o armazenamento é, de longe, suficiente para enfrentar o período de baixos índices pluviométricos que se estende até setembro ou outubro.

publicidade

publicidade