O petróleo derrete

O petróleo derrete

As cotações do petróleo tipo Brent, a referência da Petrobrás, caíram nesta segunda-feira abaixo dos US$ 50 por barril de 159 litros

Celso Ming

12 de janeiro de 2015 | 21h00

As cotações do petróleo tipo Brent, a referência da Petrobrás, caíram nesta segunda-feira abaixo dos US$ 50 por barril de 159 litros. (Veja o gráfico abaixo.)

A partir de repetidas declarações da presidente da estatal, Graça Foster, e do diretor de Produção e Exploração, José Formigli, a esse nível de preços, até mesmo os projetos do pré-sal estão inviabilizados.

Esta é uma conclusão sujeita a mil e uma revisões que até há seis meses não haviam sido necessárias porque os preços ainda estavam acima dos US$ 100. Agora é preciso reexaminar tudo, a começar pela enorme leviandade com que o assunto petróleo foi tratado nos últimos anos no Brasil.

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Do ponto de vista imediato, a atual relação de preços ainda beneficia a Petrobrás porque os preços internos dos derivados estão cerca de 30% a 40% mais altos do que os externos e o governo não pretende realinhá-los tão cedo.

Além disso, o consumo interno ainda está mais alto do que a produção e a Petrobrás agora pode importar a preços substancialmente mais baixos do que os vigentes no mercado brasileiro.

Nesta segunda, o príncipe saudita Al-waleed bin Talal advertiu que “o mercado de petróleo não deve registrar novamente preços acima de US$ 100 por barril”. É uma opinião igual a muitas outras. Hoje poucos analistas se atrevem a prever pronta recuperação. Quem lida com petróleo não pode contar com isso. Também nesta segunda, o banco Goldman Sachs avisou que passou a trabalhar com preços médios para o Brent, em 2015, de US$ 50 por barril e, em 2016, de US$ 70.

Demorou mais do que deveria ter demorado, mas o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, já entendeu que seu Estado perderá neste ano cerca de R$ 2 bilhões em receitas com royalties do petróleo, valores atrelados aos preços internacionais. Em 2014, a Petrobrás pagou nessa alínea a Estados e municípios o total de R$ 18,5 bilhões. Neste ano, deverá pagar entre 50% e 60% desse volume, dependendo do comportamento do mercado, que ninguém consegue prever.

A essa nova relação de preços, não apenas o plano de negócios da Petrobrás tem de ser urgentemente revisto. O etanol também está sob grave ameaça. Como não alcança mais de 70% do poder energético da gasolina, o produtor de etanol teria de reduzir em pelo menos 50% seus atuais custos para voltar a poder competir. As exportações, por exemplo, deverão enfrentar forte queda de demanda de produto como combustível.

Além da manutenção dos atuais preços, o governo examina o retorno da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre os preços da gasolina e do diesel. O objetivo seria menos o de aumentar a arrecadação e mais o de abrir espaço para que o etanol possa voltar a competir, com uma gasolina mais cara. Como já foi avaliado por esta Coluna em outras oportunidades, medidas como essas produziriam distorções. Deixariam os preços dos combustíveis altos demais para as empresas já às voltas com graves problemas de custos. Além disso, o governo também não poderia manter desalinhados (desta vez para cima) os preços dos combustíveis porque acabaria por favorecer a importação de gasolina e de diesel.

CONFIRA:

focus tabela

Nesta segunda-feira foi a primeira vez que o Banco Central divulgou projeções do mercado feitas também para 2016. A tabela aponta o que esperam as 100 instituições rastreadas pela Pesquisa Focus.

Queda de custos
O Deutsche Bank observou nesta segunda que os custos de produção de petróleo estão caindo. Isso vale também para o setor do xisto. A partir do desabamento dos preços, a corrida à derrubada de custos tende a se intensificar, a começar pela inevitável queda das cotações dos equipamentos destinados ao setor, tais como sondas, plataformas, navios e dutos.

Dilma e Lula
Ninguém no PT apareceu para desmentir os curtos-circuitos entre Dilma e Lula revelados por Marta Suplicy.

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