O petróleo perde preço

O petróleo perde preço

A baixa está sendo favorecida tanto por fatores ligados à demanda quanto à oferta

Celso Ming

12 de agosto de 2014 | 21h00

Há algo de diferente no mercado internacional do petróleo. Até recentemente, em momentos de grande tensão internacional, as cotações tendiam a disparar, no pressuposto de que o suprimento ficaria mais difícil. No entanto, apesar do recrudescimento da crise na Ucrânia, por onde passam gasodutos vitais para a Europa, e do aumento da beligerância no Oriente Médio, principalmente, no Iraque e no Irã, os preços estão em queda.

Desde junho, as cotações do West Texas Intermediate (WTI), o petróleo mais leve, dos Estados Unidos, e do tipo Brent, negociado em Londres, caíram, respectivamente, 7% e 7,6% (veja o gráfico abaixo).

Ontem foi divulgado o relatório de julho da Agência Internacional de Energia, com sede em Paris, que faz o levantamento das principais variáveis do mercado global do ponto de vista dos grandes consumidores mundiais. E lá ficou dito que a tendência a curto e a médio prazos é de baixa de preços, em consequência da maior oferta do que da demanda do produto. (Veja o Confira).

Essa pode ser uma boa oportunidade para que o governo Dilma promova o realinhamento dos preços nacionais aos internacionais dos combustíveis. Estivesse o mercado em alta lá fora, seria maior a brecha entre preços a ser coberta e o impacto inflacionário, mais alto.

A baixa está sendo favorecida tanto por fatores ligados à demanda quanto à oferta. Do lado da demanda, o baixo desempenho da economia europeia e a desaceleração da economia chinesa explicam uma redução do consumo de cerca de 90 mil barris diários (o barril tem 159 litros) em relação aos 180 mil barris diários anteriormente projetados.

Do lado da oferta, o que se vê é maior aumento da produção em 2015 pela Arábia Saudita, pelos Estados Unidos e pelo Brasil. Até 2020, os Estados Unidos deverão chegar à autossuficiência, graças ao crescimento da produção de gás e petróleo a partir do fraturamento de xisto e, com maior contribuição do pré-sal, o Brasil poderá ultrapassar os 4 milhões de barris diários (hoje produz cerca de 2,1 milhões) e se tornará exportador.

O realinhamento dos preços internos do Brasil aos externos se impõe por três razões: primeira, porque eliminaria o subsídio pago pela Petrobrás, especialmente, na gasolina e no diesel, fator que está sangrando seu caixa. Segunda, porque eliminaria distorções, como a desidratação do setor do etanol, que enfrenta a concorrência desleal da gasolina subsidiada. E, terceira, porque, sem o realinhamento, a Petrobrás não conseguirá atrair sócios para as novas refinarias.

A tendência à moderação das cotações internacionais do petróleo não é a única variável a levar em conta se o governo atender a essa necessidade de corrigir os preços. Outra variável é o comportamento do câmbio, cujas cotações são hoje artificialmente achatadas pelas intervenções diárias do Banco Central.
Mas não bastaria corrigir os preços. É preciso definir uma regra de conversão para dar previsibilidade. Na atual política, os preços internos são determinados subjetivamente pelo governo, cujo critério é apenas ajudar a combater a inflação, não importando as enormes distorções criadas por esse jogo.

CONFIRA:

Esta é a evolução da demanda por petróleo no mundo.

“Só louco investe no Brasil”

O presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que agora responde, também, pela presidência da Fiesp, Benjamin Steinbruch, avisou nesta terça-feira que a economia brasileira “tem muita margem para piorar”. Ele reclamou do “grande distanciamento do governo em relação à indústria”. E arrematou: “Só louco investe no Brasil”. A presidente Dilma deve achar que Steinbruch entrou no cordão de pessimistas. E, no entanto, só está dizendo o que os industriais sentem.

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