O preço do ajuste

O preço do ajuste

Do ponto de vista meramente técnico, portanto destituído de qualquer conteúdo eleitoral, a mistura de recessão e inflação é o que já temos hoje

Celso Ming

17 de setembro de 2014 | 21h07

O discurso do governo, enfatizado pela candidata Dilma Rousseff e pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, é o de que a eventual vitória da oposição produzirá recessão e inflação.

Do ponto de vista meramente técnico, portanto destituído de qualquer conteúdo eleitoral, a mistura de recessão e inflação é o que já temos hoje. O crescimento do PIB no primeiro trimestre foi negativo (-0,2%) e o do segundo, também (-0,6%). Não há mais quem projete um avanço do PIB para todo o ano de 2014 de 1%. O mercado medido pela Pesquisa Focus, do Banco Central, não prevê mais do que um avanço de 0,33% em relação ao PIB de 2013.

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Quanto à inflação, não adianta alardear que a meta está sendo cumprida. Não está. A meta é 4,5%. A inflação ultrapassa os 6,5%, portanto ultrapassa a meta mais os dois pontos porcentuais de margem de tolerância. E não deverá fechar o ano abaixo dos 6,29%, para ficar com as projeções médias do mercado. Não dá para negar que a inflação está alta demais.

Seja quem for que assumir o governo em 2015, um acerto de contas é inevitável. Um ajuste mínimo implicará atualização dos preços administrados (combustíveis, energia elétrica e transportes públicos urbanos), desvalorização cambial (alta do dólar) e reformas mínimas. Mesmo que seja gradual, esse ajuste implicará algum custo em inflação se não for compensado com aperto das despesas públicas e juros altos que, por sua vez, serão fatores de contenção da atividade econômica. Qualquer discurso diferente desse resvala para a demagogia.

É possível que o emprego também sofra algum impacto. No entanto, apesar do aumento das dispensas na indústria, o momento continua muito próximo do pleno-emprego. Um ajuste aí poderá ser doído, especialmente na indústria, onde já está sendo, mas não será nenhuma tragédia, já que o setor de serviços continua empregando pessoal. Além disso, por fatores puramente demográficos, menos gente vem procurando trabalho, como demonstram as estatísticas do IBGE.

As distorções da economia são grandes, o investimento mergulhou, como as Contas Nacionais vêm apontando, as finanças públicas estão tomando o rumo perigoso do descontrole a ponto de ameaçarem com a perda do grau de investimento. Alguns setores-chave da economia enfrentam grandes incertezas, como acontece com a indústria de veículos, do etanol, do petróleo. Paira insegurança sobre o suprimento tanto de água doce como de energia elétrica, o que inibe os investimentos. O setor de infraestrutura está prostrado pelo sucateamento e pelos custos insuportáveis.

Esses são fatores de estrangulamento da atividade econômica que exigem resposta pronta do próximo governo, não importa quem o assumir.

O repasse imediato da conta a pagar à sociedade vai, sim, cobrar seu preço. Mas é um preço bem mais baixo do que o que seria cobrado se os ajustes não forem feitos. Isso nada tem a ver com produção de recessão e inflação. Tem a ver com correção de rumo.

CONFIRA:

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O dólar paralelo (blue) continua sua escalada. Ontem, bateu novo recorde. O oficial está a 8,43 pesos.

O mundo gira…
Um dos setores que mais repudiaram o projeto de autonomia do Banco Central (BC) foi o dos seus funcionários, representados pelo Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal). Mas, depois que a presidente Dilma repeliu essa autonomia, porque, segundo ela, sem a tutela do governo, o BC faria o jogo dos banqueiros, passaram a criticar a diretoria pela sua passividade e por não defender o trabalho profissional.

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