O preço do sucesso

Celso Ming

20 de setembro de 2010 | 18h56

O presidente em exercício da Fiesp, Benjamin Steinbruch, reconheceu em entrevista ao jornal Brasil Econômico que o empresário brasileiro foi apanhado de surpresa. “Nem o governo nem o empresário estão preparados para o sucesso do Brasil”, lamentou ele.

Na semana que vem, Steinbruch poderá ter nova oportunidade para repetir o que está dizendo. Se tudo der certo, o presidente Lula vai encomendar banda de música e foguetório para comemorar o reforço de capital recorde da Petrobrás, a maior oferta de ações de todos os tempos.

Enquanto isso, se tiver um mínimo de coerência, na sede da Fiesp, na Avenida Paulista, o acontecido será visto com certa preocupação porque estará mostrando o apetite pelo Brasil não só por parte de reconhecidas instituições de investimento e de pessoas físicas comuns. Mostrará a voracidade dos asiáticos, especialmente dos chineses, cujos capitais o governo e a diretoria da Petrobrás acolhem com sofreguidão, porque precisam de recursos abundantes para desenvolver o pré-sal e US$ 224 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos.

Mas Steinbruch tem razão, o empresário brasileiro não está preparado para tantas novidades. Nem mesmo está entendendo que a sina da segunda metade do século passado ficou para trás e que está em curso a irremediável revolução das relações internacionais de troca.

As matérias-primas do Brasil, antes consideradas produtos de baixo valor agregado, de repente se tornaram comercialmente estratégicas e objeto de enxurrada de investimentos estrangeiros no Brasil. Enquanto isso, o produto industrializado passa a ser visto como símbolo de ondas passadas.

Em 2008, quando a dívida pública do Brasil ganhou certificado de grau de investimento, a Fiesp recebeu o novo status como prenúncio de um período de inéditas e extraordinárias oportunidades de acesso a recursos abundantes e baratos. Mas, agora, teme os efeitos da maciça entrada de capitais porque sabe que a indústria não ostenta as melhores condições de competitividade.

E não será apenas um câmbio mais camarada que poderá compensar os efeitos deletérios sobre a capacidade de competir causados pela enorme carga tributária, pelos custos trabalhistas elevados demais, pela precariedade da infraestrutura do Brasil, pela falta de vontade política para a reversão da disparada das despesas públicas (especialmente da Previdência Social) e pelos juros escorchantes…

A rigor, os industriais brasileiros não sabem se comemoram ou se lamentam as manifestações de espanto que correm o mundo pelo atual desempenho da economia brasileira. Farejam os novos negócios e querem estar prontos para tirar proveito da boa fase, mas repetem automaticamente que está em curso um perigoso processo de desindustrialização no Brasil e não conseguem apresentar uma única proposta factível sobre como um país sequioso de investimentos pode virar esse jogo adverso.

Como em tantos episódios da história, não dá para exigir preparação prévia dos empresários e do governo para enfrentar novas condições econômicas. A preparação tem de ser feita com o comboio em movimento. Em todo o caso, é preciso saber o que propor e o que fazer, para não continuarem sendo surpreendidos pelos acontecimentos.

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