O que é isso, companheiro?

O que é isso, companheiro?

Celso Ming

18 de agosto de 2012 | 16h30

Na semana passada, os comentaristas de Assuntos Econômicos chamaram a atenção para o fato de que, finalmente, a presidente Dilma Rousseff deixou de lado certos preconceitos e decidiu passar à iniciativa privada investimentos e administração de serviços públicos em operações de concessão – que a confraria petista há anos vêm denominando de privataria ou privatização disfarçada, como se esses processos fossem coisa do diabo.

Não são apenas parcerias desse tipo com o setor privado que vêm paralisando decisões de política econômica dos governos liderados pelo PT. Toda a atividade econômica se mantém eivada de preconceitos ideológicos partilhados pelos companheiros do Partido.

Esta Coluna, no dia 9 de agosto (Apesar de você), ao analisar o novo recorde de produção de grãos, denunciou algumas ambiguidades não resolvidas da administração do PT em relação ao desempenho da agropecuária. Para bom número deles, continua sendo uma atividade predadora liderada por latifundiários dedicados ao agronegócio que, além de explorar boias-frias e mão de obra semiescrava, praticam o desmatamento sistemático, destrói a agricultura familiar, trabalha para o avanço da monocultura da laranja, da cana-de-açúcar, do eucalipto e do pinus, promove o envenenamento do meio ambiente com agrotóxicos e espalha variedades artificiais transgênicas, na opinião deles, potencialmente nocivas para a saúde do homem, dos animais e para a biodiversidade.

As ambiguidades e a demonização ideológica que seguem paralisando a administração da política econômica não param por aí. Para essa gente, a “grande mídia” ou a “imprensa burguesa” não passa de instrumento pelo qual as classes dominantes dominam e empobrecem os demais brasileiros.

Os empresários são a “burguesia endinheirada” ou, então, o “patronato” sempre disposto a extorquir mais valia do proletariado. Os banqueiros que atuam no Brasil se dividem em dois grupos: a “banca nacional” e a “banca globalizada” que, no entanto, pouco se distinguem entre si quando se trata de impor o jogo do mercado financeiro, como se o mercado financeiro fosse constituído apenas de bancos e não, também, das aplicações feitas pelo assalariado e pelos fundos de pensão que sempre buscam a melhor rentabilidade.

A empresa estrangeira continua sendo o instrumento do imperialismo global, muitas vezes em versão mais moderna dos empreendimentos colonialistas.

As políticas destinadas ao desenvolvimento devem ser “verticais”, ou seja, devem eleger o segmento menos nocivo da “burguesia”, para receber benefícios em isenções fiscais, juros favorecidos e reservas de mercado. As melhores políticas devem ser “tiradas” em “câmaras setoriais tripartites”, às quais compareçam governo, empresários e sindicalistas.

Embora a solidariedade de classe deva ser internacional, as políticas devem favorecer preferencialmente o trabalhador da “empresa nacional”. Daí porque sempre se deve exigir participações variadas de “conteúdo local”, como nos tempos da substituição de importações, não importando o aumento do custo de produção e quantos prejuízos cause à competitividade das empresas, inclusive as controladas pelo Estado ou por capitais nacionais.

No mais, fora com o neoliberalismo, especialmente aquele que sempre foi inoculado pelo Fundo Monetário Internacional… Oooops! É preciso repensar isso, porque o governo Lula passou a prestigiar o Fundo, reforçou seu capital e quer participar mais de sua administração.

CONFIRA

Apesar da vacilação, o Índice Bovespa, que mede o comportamento das principais ações negociadas na bolsa, ensaia a segunda boa valorização mensal consecutiva. A alta de julho foi de 3,4%. Em agosto, até sexta, acumulou avanço de 5,3%.

E o tsunami? Nem a presidente Dilma voltou a falar no tsunami monetário nem o ministro Mantega voltou a falar na guerra cambial. E, no entanto, nenhum dos grandes bancos centrais enxugou a dinheirama despejada nos mercados nos últimos três anos. Ao contrário, sugere que vêm aí mais emissões de moeda.