O que muda no emprego

Celso Ming

23 de julho de 2011 | 16h30

Algumas vezes esta coluna apontou, entre as causas do enorme desemprego dos países ricos, a grande redistribuição internacional do trabalho. Mas não é a única.

Os dirigentes se comportam como se a atual escalada do desemprego fosse somente consequência da crise financeira iniciada em 2007, nos Estados Unidos. Não lhe dão tratamento de fenômeno permanente e estrutural. Ao contrário, agem como se a situação pudesse ser rapidamente revertida.

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O Federal Reserve (Fed, o banco central americano), por exemplo, justificou a chuva de moeda na economia dos Estados Unidos com o argumento de que é preciso recuperar o emprego. E, no entanto, embora mantenha os juros básicos (Fed funds) a níveis perto de zero por cento ao ano desde 2008; tenha despejado US$ 1,7 trilhão para comprar títulos podres; e tenha colocado em marcha duas operações de afrouxamento quantitativo, de US$ 300 bilhões e US$ 600 bilhões, respectivamente; a contratação de pessoal não reage. O desemprego é hoje de 9,2% da força de trabalho e não há sinais de que possa baixar rapidamente. Com algumas exceções, os números da Europa também são preocupantes (veja a tabela ao lado).

Há pelos menos três fatores de longo prazo que tendem a reduzir o emprego nos países ricos. O primeiro deles, já mencionado, é a crescente incorporação de mão de obra asiática, recentemente, subempregada. As magnitudes variam, mas vêm sendo aceito pelos analistas que, ano a ano, entre 30 milhões e 40 milhões de asiáticos obtêm seu primeiro emprego. É o que ajuda a explicar a forte redução dos custos de produção de industrializados. Os sindicatos dos países desenvolvidos (e não só americanos) seguem reclamando de que as crescentes importações de manufaturados da China e as transferências de indústrias inteiras para a Ásia estão fechando empregos nos Estados Unidos e na Europa. E a China planeja arrumar trabalho, em 20 anos, para uma população de 400 milhões, hoje, subempregada.

O segundo fator de longo prazo que pressiona o mercado global de trabalho é a incorporação das mulheres, quase metade da população. Trata-se de um processo que ainda não completou três gerações. Há pouco mais de 60 anos, elas não conseguiam mais do que cinco ou seis ocupações remuneradas: professora, enfermeira, secretária, telefonista, empregada e babá. Hoje, a mulher disputa com os homens em (quase) igualdade de condições em praticamente todas as profissões. O impacto disso ainda está para ser medido, mas não pode ser desdenhado.

E, enfim, aqui está o terceiro fator de longo prazo, que não tem mais do que 30 anos. É a adoção crescente de Tecnologia de Informação (TI) nas cadeiras de produção, de vendas e de prestação de serviços. É toda essa tralha eletrônica (computadores, software, internet, nuvens virtuais) que cortou custos em todos os setores: instalações, estoques, linhas de produção e – obviamente – pessoal.

A atuação desses três fatores (redistribuição internacional do trabalho, incorporação da mulher e emprego de TI) ainda está em desenvolvimento. Ou seja, ainda tende a produzir desemprego no Ocidente – a menos que sobrevenha uma virada, hoje, improvável.

CONFIRA

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Dilma. Qual é a prioridade? (FOTO: ED FERREIRA/AE)

A presidente Dilma Rousseff pode ter mudado seu discurso. Em sua posse, e várias vezes depois, insistiu em que a prioridade da política econômica do seu governo é o combate à inflação. Sexta-feira, disse algo diferente:

Sem crescimento zero. “Não queremos inflação sob controle com crescimento zero.” Ou seja, Dilma disse que prioridade mesmo é crescer. Depois de garantir isso é que se vai ver como combater a inflação.

Questão de escolha. Não há nada de condenável. É uma escolha de política econômica como outra qualquer. Mas tem uma coisa: prevalecendo essa política, o ataque à inflação deixa de ser prioritário.