O rombo está aumentando

Celso Ming

22 de abril de 2010 | 18h52

O rombo das contas externas brasileiras (déficit em Conta Corrente) não é problema e é problema. Depende de muita coisa.

Muitas vezes os economistas discutem esse déficit ou como um grave perigo a enfrentar ou como ameaça apenas imaginária, uma espécie de cuca, a malvada, que aparece de noite na cama das crianças, especialmente na das malcomportadas.

O debate sem a necessária objetividade começa dentro do governo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por exemplo, age e às vezes reage como se fosse um problemão. Mas lhe falta coragem para reconhecer que, em sendo problema, tem mais a ver com a esticada das despesas públicas, área de jurisdição de seu Ministério.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por sua vez, quer sempre se defender dos ataques à política cambial comandada por ele e, por isso, tende a argumentar que o atual déficit é prova de saúde econômica, porque conta com a cobertura dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs), sinal de confiança. Mas Meirelles também evita mencionar que esse déficit tem a ver com excesso de despesas do governo federal.

Antes de ir em frente, convém passar um pano de pó nesse conceito. As Contas Correntes são o pedaço do balanço de pagamentos que inclui as transações pagas ou recebidas com o exterior. Só ficam de fora os fluxos de capital. Fazem parte o comércio exterior (exportações e importações), os serviços (juros, turismo, etc.) e as transferências unilaterais (como as remessas que as famílias fazem aos filhos que estudam no exterior).

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O gráfico mostra como evolui o saldo dessa conta. Em geral, quem semeia o medo da cuca pensa logo em câmbio fora do lugar e argumenta que o déficit está subindo porque o dólar barato demais derruba as exportações e, ao mesmo tempo, inibe as importações. Por isso, é preciso desvalorizar urgentemente o real.

Em geral, quem argumenta que esse saldo negativo não mete medo aponta, como já disse, para a Conta de Capitais e avisa que os IEDs vêm sendo mais do que suficientes para cobri-lo e, por isso, não é preciso mexer no câmbio.

Apenas parte da expansão desse déficit tem a ver com a queda das exportações e, nesse sentido, o câmbio não leva culpa nisso. Nos últimos meses, foi a crise que encolheu o mercado externo. A maior fatia desse déficit tem a ver com o aumento do consumo interno (de 10% ao ano), que reflete a expansão das despesas públicas, que cria renda, reduz o excedente exportável e aumenta as importações. Qualquer principiante em Economia sabe que déficit em Conta Corrente está quase sempre relacionado com aumento do consumo e redução da poupança.

A questão de fundo consiste em saber se a atual expansão do rombo deixa a economia vulnerável e quanto. O atual déficit é de 1,8% do PIB, bem menor que o de mais de 6% do PIB registrado no início dos anos 80, quando o Brasil quebrou duas vezes. Além disso, sua qualidade é diferente, na medida em que pode ser coberto com capitais de investimento e não mais com dívidas de curto prazo que enforcavam o País. O que é grave e insustentável é a expansão das despesas públicas, hoje a nada menos que 17% ao ano.

Confira

Os novos cálculos da Eurostat, a agência que faz as estatísticas da União Europeia, mostraram hoje que a situação fiscal dos países do bloco é bem pior do que se imaginava. 

O Toyota e seus problemas. Ou o Toyota Corolla tem problemas graves de segurança ou não tem. Se tem, não faz sentido proibir sua venda apenas em Minas; teria de ser no Brasil inteiro. Se não tem, não há por que proibir as vendas em qualquer parte do Brasil, inclusive em Minas Gerais.

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