O rombo pesa

Celso Ming

27 de abril de 2010 | 19h32

Faz seis meses que a encrenca grega atormenta os mercados e as autoridades do mundo inteiro. Cúpula após cúpula, comissão após comissão, os dirigentes europeus produzem notas oficiais em que manifestam intenções, mas não conseguem acabar com o problema.

Hoje foi um desses dias de turbulência e de impaciência cujo deflagrador foi o rebaixamento da qualidade das dívidas de Portugal e Grécia. As bolsas europeias despencaram, o euro perdeu 1,5% do seu valor em dólares (veja o Confira) e, a despeito dos pronunciamentos em contrário, mais e mais gente passou a temer pelo calote grego.

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A solução não se viabilizou até agora aparentemente pela ferrenha oposição da opinião pública da Alemanha. Mais de 70% da sua população é vigorosamente contra qualquer ajuda “a essa gente folgada da Grécia”.

Por isso, a chanceler Angela Merkel dispara uma declaração dura atrás da outra com o objetivo de aplacar os demônios germânicos. Tudo se passa como se a atual manifestação da crise devesse se aprofundar a ponto de derrubar a cotação do euro a níveis assustadores para que se possam criar condições políticas para um socorro eficaz à Grécia e a Portugal.

Tudo parece bem mais complicado do que parecia lá por outubro e novembro de 2009, quando esta crise começou a ser percebida. O rombo da Grécia é bem maior do que fora admitido. Em meados do ano passado, seu governo reconhecia um déficit público de cerca de 6,0%. Depois, foi obrigado a revê-lo para 12,7%. E, na semana passada, a Eurostat, organismo encarregado das estatísticas europeias, puxou os números negativos ainda mais para acima, para 13,6%. Essas seguidas revisões levantam a suspeita de que mais esqueletos podem aparecer.

Em segundo lugar, a letra G não está sozinha. No turbilhão estão as demais que formam o acrônimo original Pigs (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) e sabe-se lá se o contágio não vai arrastar outras mais para a crise.

Esse não é caso de fobia pura e simples. A deterioração das finanças dos países de alta renda, entre os quais estão pelo menos mais três europeus (Reino Unido, Itália e Hungria), pode se transformar na mais nova subprime das finanças globais.

Não é verdade que esses rombos tenham aparecido apenas com a crise dos Estados Unidos. Ela não cresceu apenas porque exigiu novos gastos com socorro aos bancos, com seguro-desemprego e políticas anticíclicas, numa paisagem geral de recessão e de queda de arrecadação.

A atual escalada das despesas públicas começou lá atrás. Nos Estados Unidos tem como causa a cobertura das despesas de guerra do período Bush-2 e a baixa disposição a poupar por parte do consumidor americano. E na Europa está relacionada ao forte crescimento das despesas com seguridade social (welfare state).

O Brasil não pode se fiar no efeito marolinha do ano passado. Se o agravamento da crise financeira global se confirmar, os mercados para o produto brasileiro se estreitarão. E o afluxo de capitais também se reduzirá num momento em que o investimento é cada vez mais vital para garantir a expansão futura. O crescimento do PIB nacional deste ano, da ordem de 5,5% a 6,0%, pode ser considerado garantido. O problema será 2011 em diante.

Confira

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Moeda ameaçada – Nesta terça o euro atingiu sua menor cotação em 12 meses. Você tem acima a trajetória do euro diante do dólar.

Mico grego – O novo rebaixamento da dívida da Grécia deixa o Banco Central Europeu (BCE) em uma sinuca de bico. Se nas suas operações com os bancos continuar aceitando como garantia (colateral) os títulos gregos, como se fossem tão bons quanto os alemães, o BCE perderá credibilidade e essa perda de credibilidade será repassada para o valor do euro. Mas, se não aceitar, afundará de vez a Grécia, depois Portugal, Espanha…

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