Onde a roda pega

Celso Ming

18 de setembro de 2010 | 17h00

Um punhado de fatos pipocados em vários pontos do planeta tem um eixo em comum. Vamos a eles:

– O massacre de 72 imigrantes ilegais que tentavam cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos, ocorrido dia 25 de agosto;

– A expulsão de 1,7 mil ciganos determinada em julho pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy;

– O enorme aumento das manifestações xenofóbicas ou antiétnicas na Europa e nos Estados Unidos;

– O grande número de africanos que atravessa o oceano em embarcações improvisadas em direção à costa da Espanha;

– As crescentes pressões dos políticos dos Estados Unidos para que o governo americano exija forte valorização da moeda da China, o yuan;

– O achatamento dos salários e das aposentadorias colocado em prática pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel;

– A intervenção do governo do Japão iniciada na última quarta-feira nos mercados para estancar a valorização do iene em relação ao dólar;

– O anúncio feito na semana passada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o governo brasileiro impedirá a “excessiva valorização do real”.

O fator comum por trás desses acontecimentos é o crescimento do desemprego nos países de alta renda, que, por sua vez, é consequência da insuficiente recuperação do sistema produtivo tão duramente atingido pela crise financeira global.

Segunda-feira, em Oslo (capital da Noruega), onde se realizou conferência sobre o emprego, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, advertiu que, enquanto não houver uma sólida reativação do mercado de trabalho no mundo, não se pode dar por terminada a crise.

Com isso, Strauss-Kahn avisa que a verdadeira natureza da crise que hoje empaca a economia não é o estouro das bolhas imobiliárias nos Estados Unidos, nem a deterioração patrimonial de centenas de bancos ao redor do globo, nem o estrangulamento do crédito. É o aumento do desemprego, mesmo com certa reativação do setor produtivo.

Desse ponto de vista, a maior crise do capitalismo desde os anos 30 deve ser vista como movimento de ajuste na grande transformação que acontece na divisão internacional do trabalho. Fortes contingentes de mão de obra asiática (e não apenas da China) – entre 40 milhões e 60 milhões de pessoas (o equivalente a duas Argentinas) – vêm sendo admitidos todos os anos no mercado de trabalho.

Cada par de tênis ou cada jaqueta made in China vendidos no varejo do Ocidente são indicação dos postos de trabalho que se abrem na China e, ao mesmo tempo, de empregos que desaparecem no outro lado do mundo.

Ou seja, são as tremendas pressões sobre os mercados de trabalho que despertam ódios raciais, movimentos contra imigrantes (legais ou não), intervenções das autoridades no câmbio nos quatro pontos cardeais e diminuição de salários e aposentadorias, com o objetivo de reduzir os custos de produção de artigos exportáveis.

Em apenas três gerações, o mercado internacional do trabalho teve de acomodar o afluxo de metade da população planetária (as mulheres) que até os anos 40 estava à margem do sistema. Agora, é chamado a encaixar mais meio bilhão de asiáticos excluídos. Com crescimento econômico, esse processo de absorção tinha lá os seus problemas, mas vinha sendo realizado. Com a crise financeira mundial, a roda passou a pegar mais brutalmente.

As consequências não são apenas econômicas. São principalmente políticas. É, por exemplo, o fortalecimento dos movimentos ultraconservadores, como o “Tea Party” nos Estados Unidos, e o dos ultranacionalistas na Europa.

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