Operação Twist

Celso Ming

19 de setembro de 2011 | 19h45

A falta de reação da economia dos Estados Unidos está levando o mercado financeiro internacional a pressionar por novas ações do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). É o que um grande número de analistas internacionais aguarda com ansiedade que seja anunciado amanhã, ao mesmo tempo que o Fed divulgar o resultado de mais uma reunião destinada a reexaminar os juros.

Desde junho, a reivindicação-padrão era a de que o Fed, presidido por Ben Bernanke, voltasse a comprar títulos do Tesouro americano no mercado secundário, dentro do que se convencionou chamar de afrouxamento quantitativo (quantitative easing).

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Bernanke. Sob pressão (FOTO: REUTERS)

Essa operação consiste em emitir moeda e, com ela, comprar os títulos. O objetivo é injetar dinheiro no mercado para que o crédito se expanda e, com ele, o consumo, a produção e o resto da atividade econômica.

Afora as outras emissões de US$ 1,7 bilhão destinadas a resgatar títulos privados que estavam sem liquidez desde meados de 2008, quando do estouro da crise, o Fed fez duas operações de afrouxamento quantitativo, num total de US$ 900 bilhões. O resultado foi fraco ou, mesmo, inexistente. Em vez de reemprestar ao setor privado, os bancos preferiram depositar os recursos no próprio Fed, porque entenderam que o mercado já estava excessivamente endividado.

Depois de insistirem em novas operações de afrouxamento quantitativo e verem pouca disposição em atendê-los, os analistas querem agora que o Fed coloque em movimento a chamada Operação Twist. O nome vem do primeiro evento no gênero, em 1961, quando o twist era a dança da moda.

Trata-se da troca de títulos de curto prazo em poder do Fed por títulos de longo prazo. Do ponto de vista da autoridade monetária, essa operação traz duas vantagens sobre a anterior. Primeira, não aumenta a carteira de títulos do Fed – ou seja, dispensa emissões adicionais de moeda. Segunda, cria demanda para títulos de longo prazo, na mesma proporção em que haja troca. A consequência esperada é a redução dos juros de longo prazo que, por sua vez, tende a expandir o horizonte para as empresas e, assim, incentivar investimentos. O Fed tem em carteira cerca de US$ 500 bilhões em títulos do Tesouro com vencimento previsto de menos de três anos.

Provavelmente por falta de opções à mão, o mercado financeiro deposita esperanças excessivas nessa operação. Se injeção na veia (o afrouxamento quantitativo) não teve o resultado esperado, não serão esses comprimidos de Novalgina que darão conta do recado.

Não faltam recursos. Ao contrário, nunca se viu tanta liquidez. E, no entanto, nem os bancos se animam a emprestar para seus clientes nem estes se animam a se endividar ainda mais. Somente no setor imobiliário, o setor privado dos Estados Unidos enfrenta dívidas (hipotecas) que ultrapassam os US$ 12 trilhões.

Repetindo o que ficou dito aqui algumas vezes: uma saída seria uma operação que reduzisse em determinado prazo as dívidas dos mutuários, abrindo espaço para novos endividamentos. Aparentemente, o que impede isso é a oposição do Partido Republicano, sempre disposto a explorar o argumento de que é injusto alguns pagarem tudo (os que já saldaram suas dívidas habitacionais) e os folgados serem beneficiados com um perdão que, de resto, tem objetivos eleitorais.

CONFIRA

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Apenas em setembro, a cotação do dólar em reais saltou 11,3%. É possível que o mercado esteja testando para saber qual o teto que as autoridades admitem para o câmbio. O principal efeito colateral é mais inflação: quanto maior o valor do dólar, mais caras ficam as importações. O novo empenho do governo (IOF de 6% nas operações vendidas de derivativos) para inverter a tendência à valorização do real não é o único fator de alta. A redução dos juros e a percepção de que o governo Dilma envereda para uma administração heterodoxa da política econômica são outros dois.

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