Os Brics como bloco

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Os Brics como bloco

Embora não passem de um aglomerado de países grandes com escassos interesses em comum, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul sacramentam a criação de duas instituições que podem aumentar sua influência conjunta na geopolítica global

Celso Ming

14 de julho de 2014 | 21h00

Nesta terça-feira, 15, em Fortaleza, o Brics dará o primeiro passo para ser mais do que uma sigla. Embora não passem de um aglomerado de países grandes com escassos interesses em comum, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul sacramentam a criação de duas instituições que podem aumentar sua influência conjunta na geopolítica global.

Criada há 13 anos por Jim O’Neill, então economista-chefe do banco Goldman Sachs, a sigla pretendia apenas apontar os países emergentes com mais condições de influência futura no mundo. Agora, seus dirigentes pretendem costurar projetos em comum e agir como bloco.

As mais importantes decisões a serem tomadas hoje em Fortaleza pelos chefes de Estado dos Brics são a criação de um banco de desenvolvimento, o New Development Bank (NDB), e um fundo de reservas para prevenir incapacidades de pagamento, o Contingency Reserve Arrangement (CRA).

Ambos nascem a partir das críticas à atuação das duas grandes instituições globais fundadas em 1944, na reunião de Bretton Woods, destinadas então a compor a reorganização global no pós-guerra: o Banco Mundial (World Bank) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os Brics entendem que o Banco Mundial e o FMI fazem o jogo dos Estados Unidos, estão esclerosados, rechaçam reformas que garantam maior participação dos emergentes em sua direção e fazem exigências demais aos países que eventualmente precisem de recursos para enfrentar uma crise na sua capacidade de honrar compromissos.

O novo banco terá capital inicial de US$ 50 bilhões, a ser subscrito equitativamente pelos cinco sócios. O CRA deverá contar com US$ 100 bilhões, com os quais a China aportará 41%; Brasil, Rússia e Índia entrarão com 18% cada um; e a África do Sul, com 5%.

Com esse capital de apenas US$ 50 bilhões, o novo banco terá limitado poder de fogo. Apenas para comparar, um projeto de trem-bala, tal como o previsto para o Brasil, não sai por menos de US$ 14 bilhões. Apenas a Petrobrás prevê investimentos de US$ 220 bilhões nos próximos quatro anos. É claro que esse banco poderá completar seu passivo com levantamento de recursos no mercado global. Ainda assim, será pequeno. Somente o nosso BNDES tem um passivo de US$ 350 bilhões.

Quando integralizadas, as disponibilidades do novo fundo de reserva serão apenas uma fração do volume de reservas externas em poder de cada um dos Brics – exceção feita ao caso da África do Sul (veja tabela).

Ou seja, se for para se apoiar mutuamente, essas duas instituições terão baixo alcance. E, se for para atender terceiros países, terão alcance mais limitado ainda. No entanto, o tamanho e a função real a ser desempenhada por essas instituições não serão as questões mais importantes. Mais importante será saber se os cinco integrantes do Brics conseguirão se entender em torno de um projeto comum que se apresente como alternativa ao Banco Mundial e ao FMI.

CONFIRA:

Baixa competitividade

A propósito das duas colunas deste final de semana sobre a doença holandesa, o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega adverte que o fator relevante é a baixa competitividade do setor produtivo brasileiro. E este não é causado pela exportação de commodities (que caracterizaria a doença holandesa), mas pelo alto custo Brasil, como “a péssima qualidade do sistema tributário, a deterioração da infraestrutura, o ampliado anacronismo da legislação trabalhista, a baixa produtividade do trabalho. A indústria precisa mais de reforma do que de câmbio desvalorizado”.

Intervenção no câmbio

O leitor Eduardo Cotrim vai mais ao conceito do que aos efeitos: “Não podemos falar em doença holandesa no Brasil. Doença holandesa pressupõe moeda valorizada, mas nossa moeda só não está mais desvalorizada porque o Banco Central vendeu aproximadamente US$ 90 bilhões em swaps cambiais no último ano”. Outro leitor, mais irreverente, prefere dizer: “No Brasil, doença holandesa é aftosa”.

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