finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Os mercados não esperam

Celso Ming

21 de outubro de 2011 | 19h45

As divergências entre dirigentes da área do euro sobre o que fazer para controlar a crise parecem insuperáveis. Após meses de encontros e discussões, tudo parece novamente emperrado.

A Coluna passada tratou de um dos temas das reuniões de cúpula dos chefes de Estado do bloco, agendadas para domingo e quarta-feira, em Bruxelas: reforçar o capital dos principais bancos. Esta focará na nova linha de crédito destinada a resgatar economias na iminência de suspensão de pagamentos (default).

SARKOZY_MERKEL_FABRIZIO_BENSCH_REUTERS.JPG
Sarkozy e Merkel. Divergências (FOTO: FABRIZIO BENSCH/REUTERS)

Desde que começaram a soar os sinais de alarme sobre a disparada dos riscos de calote de títulos de dívida soberana (de tesouros nacionais), lideranças europeias trataram de criar uma linha de financiamento para emergências. É o chamado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês).

Esse é o embrião do fundo monetário europeu, que já tem nome: Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM). Está previsto para funcionar em 2013, mas pode ser antecipado, porque as urgências estão aí.

Um dos problemas do EFSF é seu nanismo para a escala europeia. Será dotado de 440 bilhões de euros (ainda não integralizados), de longe insuficientes para socorrer países grandes, como Espanha e Itália, caso precisem de pronta ajuda.

São dois os debates sobre a linha de crédito. O primeiro, sobre finalidade. Servirá países sem liquidez ou poderá também capitalizar bancos, sobretudo se a Grécia for autorizada a impor calote de 60% na sua dívida (veja o Confira)? A França defende a abrangência. A Alemanha é contra.

Outra questão: a multiplicação do seu alcance sem elevar demasiadamente seu tamanho. É o que em Finanças se chama de alavancagem – mais ou menos como uma dona de casa faz para que um bife ou uma porção de batatas deem conta de um aumento repentino de bocas.

A primeira proposta é a permissão de que esse fundo emita dívida (eurobônus) que seja solidariamente garantida por todos os participantes do euro. Seria um jeito de dar início à imprescindível união fiscal do grupo. Outra vez, os alemães vetaram. Alegam que a parte maior da fatura acabaria sendo empurrada para eles.

Mais uma ideia é usar parte desse cacife como seguro contra inadimplências de bônus soberanos. As primeiras estimativas são de que os tais 440 bilhões de euros teriam, assim, amplitude real de 1 trilhão de euros. Nesta sexta-feira, por exemplo, um grupo de fortes bancos e seguradoras fez oficialmente essa reivindicação.

Uma terceira opção é o Banco Central Europeu (BCE) largar a ortodoxia e atuar nos resgates das dívidas e no suporte das instituições financeiras, diretamente ou por meio do EFSF. Emitir moeda para isso é rigorosamente proibido pelos tratados e pelas práticas de boa governança dos bancos centrais. Mas a prioridade é salvar o euro. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não chegou à beira da irresponsabilidade e imprimiu dinheiro para recuperar o dólar? E por que o BCE não pode fazer o mesmo? Aí, também, França e Alemanha se opõem, mas de divergência em divergência o tempo está se esgotando.

Um costume mais ou menos comum nas negociações internacionais com prazo para terminar é parar o relógio até que se chegue a um acordo. Esse truque não se aplica aos atuais impasses, porque o mercado financeiro não espera. Quando entra em pânico, fica difícil trazê-lo de volta à normalidade.

CONFIRA

21% é pouco. O jornal El País, da Espanha, divulgou nesta sexta que um informe da Troica advertiu que a estabilização da dívida da Grécia exigirá um corte de 60% – e não somente de 21%, como foi acertado em julho.

Trio de fiscais. Troica é como vem sendo chamada a equipe que examina as finanças gregas. Ela é formada pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu. A Grécia tem uma dívida de 340 bilhões de euros, sua maior parte em carteira de bancos da França e da Alemanha.

Sumam com os termômetros. A revista alemã Spiegel anunciou na quinta-feira, 20, que dirigentes da União Europeia estudam a “proibição temporária” da divulgação por parte das agências de classificação de risco de informes sobre o rebaixamento da qualidade de sua dívida soberana. Caso isso realmente se confirme, os termômetros deverão ser escondidos e ninguém mais terá notícia do tamanho da febre.

Tendências: