Para o alto e para o caos

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Para o alto e para o caos

Celso Ming

09 de novembro de 2013 | 16h00

Uma cidade viva é feita de esquinas, pontos de encontro e gente nas ruas. A definição da escritora norte-americana Jane Jacob, no livro Morte e Vida de Grandes Cidades (1961), é ignorada nas metrópoles brasileiras, que seguem erguendo edifícios cada vez mais altos, isolados por muros de concreto e espaços infindáveis para garagens.

A verticalização foi há anos recomendada por urbanistas e empresários da construção civil como melhor forma de aproveitamento da infraestrutura de redes de água, esgoto, energia elétrica, cabos telefônicos e sistema viário. No entanto, as cidades estão sendo tão dramaticamente asfixiadas por congestionamentos, que está mais do que na hora de reexaminar esse conceito. Mesmo municípios de pouco mais de 300 mil habitantes começam a acusar engarrafamentos até na saída da garagem de condomínios.


Avenida Berrini. O céu é o limite (FOTO: Alex Silva/Estadão)

Se for aprovado o novo Plano Diretor Estratégico, São Paulo se verticalizará ainda mais. A proposta do prefeito Fernando Haddad permite aumento da área construída de até quatro vezes a área do terreno, no entorno de linhas de trens e de corredores de ônibus. Hoje, esse coeficiente de aproveitamento é adotado apenas em zonas especiais, como no centro da cidade e na Avenida Paulista.

Como foram criados 220 km de faixas exclusivas para ônibus apenas nos primeiros 10 meses da gestão Haddad, a aprovação do novo Plano produzirá enorme impacto urbanístico, provavelmente ainda não levado em conta.

Marly Namur, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) recomenda cautela: “Os espaços vazios se esgotaram, mas não dá para adensar toda São Paulo. O sistema viário não suporta. É preciso combinar plano de transportes e lei de ocupação do solo”. No entendimento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU), a melhor ocupação ao longo de grandes avenidas induzirá o emprego e reduzirá a necessidade de deslocamento da população.

Essa estratégia não garante bons resultados. Como argumenta Pedro Moreira, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o ideal é morar perto do emprego, mas a escolha é rara. Trabalha-se onde há emprego. O sujeito mora em Itapecerica e vai ganhar o pão no Ipiranga. Seis meses depois, não tem saída senão trabalhar na Vila Leopoldina.

A SMDU ainda defende o incentivo a construções de uso misto, nas quais o andar térreo de edifícios residenciais é aberto para uso comercial. Isso pode trazer problemas novos: “Prédios isolados com muros e vários andares de garagem são um equívoco, uma negação da cidade”, adverte Valter Luís Caldana Jr., da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie. É possível adensar sem verticalizar, diz ele, por meio da alteração dos recuos das laterais e dos fundos do terreno, como em Barcelona e Paris: “Tudo depende de pensar a cidade junto com a rua, calçadas largas e arborizadas, e ocupação do andar térreo como fator de oxigenação do sistema”.

No entanto, desde os tempos de Colônia, a ocupação das áreas urbanas no Brasil tem sido marcada por improvisos e enorme irracionalidade. /COLABOROU DANIELLE VILLELA

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E os shopping centers? Os problemas do adensamento urbano não se resumem à construção de edifícios cada vez mais altos para habitação ou para escritórios. Problemas enormes podem acontecer também com a construção de edifícios que não necessariamente tenham muitos andares. É, por exemplo, o caso dos shopping centers, quando não levam em conta os problemas de circulação viária, como tem acontecido em São Paulo e em outras metrópoles.

Hospitais verticais. Também se pode erradamente imaginar que edificações destinadas ao atendimento de saúde possam merecer tratamento diferenciado. O problema é que tudo isso pode provocar enormes transtornos ou, até mesmo, inviabilizar o atendimento de emergências. Quando, por exemplo, as novas torres do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo forem inauguradas, o trânsito das estreitas ruas circundantes, já caótico, tenderá a ficar ainda pior. E até mesmo as ambulâncias poderão ter dificuldade em chegar ao hospital.

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