Passo tartaruga

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Como das outras vezes, o governo Dilma preferiu desclassificar as projeções dos economistas do FMI como irrealistas ou influenciadas pelos pessimistas

Celso Ming

07 de outubro de 2014 | 21h00

A ficha que o Fundo Monetário Internacional (FMI) preencheu sobre o desempenho da economia do Brasil é desalentadora. Crescerá este ano apenas 0,3% e, em 2015, não mais que 1,4%. Essas magnitudes são o resultado de revisões seguidas, todas para baixo. (Veja a tabela abaixo.) Mais ainda, ao contrário do que vêm afirmando a presidente Dilma e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, esse fiasco se deve às escolhas equivocadas de política econômica: “A fraqueza primordial (da economia brasileira) vem de fatores domésticos” – afirmou, nesta terça-feira, o vice-diretor do Departamento Econômico do FMI, Gian Maria Milesi-Ferretti.

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Como das outras vezes, o governo Dilma preferiu desclassificar as projeções dos economistas do Fundo como irrealistas ou influenciadas pelos pessimistas dos seus próprios quadros e também os daqui, como fez o ministro Guido Mantega nesta terça-feira.

O Banco Central do Brasil vem trabalhando com um avanço do PIB de 0,7%. É mais do que o dobro das previsões do FMI, mas, ainda assim, muito baixa. O mercado financeiro, ouvido semanalmente pelo Banco Central por meio da Pesquisa Focus, apontou, na semana passada, a média de crescimento do PIB para este ano de apenas 0,24%.

Do ponto de vista macroeconômico é um desempenho muito perto do desastre. Baixíssima atividade econômica, como a de agora, predispõe o organismo econômico a infecções de todo tipo. Implica arrecadação mirrada, portanto, problemas para a execução do Orçamento. Quando conjugada com expansão forte das despesas, como ocorre agora, leva à expansão da dívida pública. Deixa a economia mais propensa à inflação, aos desequilíbrios no balanço de pagamentos e a distorções, como o desânimo e a queda dos investimentos.

A insistência do governo,  repetida nesta terça-feira, de que a frustração do PIB se deve unicamente à crise externa não tem cabimento. Se esse diagnóstico tivesse consistência, o desempenho da economia brasileira não ficaria assim muito abaixo da média dos demais países da América Latina (de 1,3%) e da média dos países emergentes (4,4%).

Mesmo se fosse aceitável a explicação oficial para esse resultado medíocre, ficaria fácil de comprovar que o governo errou, quando não por outra razão, ao menos por não ter levado em consideração o impacto do mau desempenho mundial sobre a economia interna.

Foram inúmeras as vezes, nos últimos três anos, em que a presidente Dilma e as autoridades da área econômica vieram a público para dizer que não havia nada de especialmente errado com a economia. E que, apesar da crise externa e graças à excelência da política econômica, vinham sendo incorporados cerca de 40 milhões de brasileiros ao mercado de consumo.

Ao longo desta campanha eleitoral, a presidente Dilma insistiu em afirmar que a inflação está, sim, um pouco fora do ponto, mas, em compensação, a economia vive dias nunca vistos de pleno-emprego e a recessão foi evitada – como se um crescimento de apenas 0,3% neste ano fosse muito diferente da recessão.

O governo Dilma chega ao fim do seu primeiro mandato com esse crescimento econômico aí, com uma inflação acima do teto da meta e com o nível de confiança mais baixo dos últimos cinco anos. Decididamente, não são boas credenciais para apresentar ao eleitor.

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