Pecados capitais

Pecados capitais

Celso Ming

31 de maio de 2014 | 17h00

A sucessão de resultados medíocres do PIB e de inflação alta demais (à altura dos 6,0% ao ano) ao longo do governo Dilma não pode ser atribuída à crise global, como dizem as autoridades de Brasília.

Esta é, em si mesma, uma alegação incoerente. Se a situação externa tivesse tanta influência, como quer fazer crer o governo, a inflação também estaria em torno de zero, como lá.

 

As frustrações não têm explicação senão a má condução da economia, num cenário externo desfavorável, é verdade, mas marcado por escolhas equivocadas de política econômica.

A desarrumação começou ainda em 2011, quando o governo Dilma pretendeu ativar o avanço econômico com uma política fiscal frouxa, destinada a aumentar o consumo, derrubada acentuada dos juros (até abril de 2013), acompanhada de uma política de desvalorização da moeda (alta do dólar).

A justificativa para esse arranjo foi a de que se precisou montar uma política econômica contracíclica mais desonerações fiscais para enfrentar a estagnação externa. Mas os pressupostos da manobra revelaram-se igualmente equivocados. Ficou claro que não basta estimular o consumo com mais despesas públicas e juros artificialmente achatados num quadro de baixa competitividade da indústria. O aumento da demanda foi alimentado com mais importações e, apesar do bom desempenho do setor agrícola, provocou deterioração nas contas externas. O mergulho extemporâneo dos juros, acompanhado de uma política de desvalorização do real, além de não ampliar o mercado externo para o setor produtivo, causou mais inflação. Para evitar a escalada desastrosa dos preços, o governo optou pelo represamento dos preços administrados (tarifas de energia, dos combustíveis e dos transportes urbanos). E a reviravolta da política de juros não foi suficiente para segurar a inflação.

Tudo isso junto derrubou a confiança tanto do setor produtivo como do consumidor. O Tesouro está esgotado porque gastou em excesso e renunciou demais à arrecadação de impostos. Não consegue manter seu foco anticíclico quando mais precisa dele para reativar a economia.

O governo Dilma descobriu tarde que a ênfase no consumo, sem acionamento do investimento, produziria a derrapada que hoje se vê na economia. A política de abertura às concessões de serviços públicos também não deslancha, por falhas de gerenciamento do mesmo tipo das que causaram atraso e desperdício nas obras da Copa do Mundo.

Como ocorreu com o Tesouro, o avanço ao patrimônio das joias da coroa, como Petrobrás e Eletrobrás, sacrificou a capacidade de investimento dessas empresas e derrubou setores promissores da economia, como o do etanol e o da produção de energia alternativa.

Há quem argumente que a economia precisa só de certos ajustes. Não é verdade. Além de uma forte recalibragem nos fundamentos para que voltem a dar sustentabilidade ao crescimento, a economia precisa de reformas. E isso, por sua vez, exige uma custosa transferência de contas a pagar para toda a sociedade.

CONFIRA:

Aí está a participação dos três principais setores da economia no bolo do PIB. (Não há dados de 2014.)

Agronegócio

O desempenho do setor agropecuário (crescimento de 3,6% no primeiro trimestre sobre igual período do ano passado) foi o que impediu um desastre total do PIB, apesar da precariedade da infraestrutura, que mantém elevados os custos de produção. E, no entanto, o governo Dilma continua com o desmonte do setor do etanol, na medida em que mantém artificialmente baixos os preços da gasolina.

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