Pedaladas da inflação

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Pedaladas da inflação

Como esperado, por um triz a inflação de 2014 não estourou o teto da meta, que é 6,5%

Celso Ming

09 de janeiro de 2015 | 21h00

Como esperado, por um triz a inflação de 2014 não estourou o teto da meta, que é 6,5%.

Só ficou nos 6,41% porque foi submetida às pedaladas impostas pelo período anterior do governo. Fica inevitável enfrentar a realidade a custo mais alto. A inflação de janeiro tem tudo para superar 1% e, em 12 meses, estourar outra vez o teto da meta.

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A pedalada da inflação é diferente da que aconteceu nas contas públicas, mas o resultado é mais ou menos o mesmo. A pedalada das contas públicas, praticada pelo ex-ministro Guido Mantega e pelo ex-secretário do Tesouro Arno Augustin, consistiu em transferências sucessivas de contas a pagar para os meses (ou ano) seguintes, para enfeitar as estatísticas.

A pedalada da inflação consistiu em represamento artificial de tarifas, especialmente dos chamados preços administrados, como os da energia elétrica, combustíveis e transportes urbanos, para não sobrecarregar a inflação corrente. Ou seja, um pedaço da inflação foi sendo empurrado para os meses seguintes. Tanto o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quanto o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, avisaram que preços e tarifas enfrentarão agora o processo de realinhamento. É outro jeito de dizer que os represamentos acabarão. E agora em Brasília se discute o tarifaço da energia elétrica, capaz de elevar os preços da conta de luz para alguma coisa próxima dos 25%.

A prática da contenção artificial dos preços administrados provocou pelo menos três distorções. A primeira foi ter sangrado o Tesouro, na medida em que se exigiram maciças transferências de recursos, especialmente para as empresas do setor elétrico. A segunda foi ter prejudicado o Tesouro, tanto o Federal quanto o dos Estados e dos municípios, por outro motivo: os atrasos nos reajustes reduziram a arrecadação, uma vez que os impostos incidiram sobre preços mais baixos. E, finalmente, o represamento dos preços corroeu o caixa da Petrobrás em cerca de R$ 30 bilhões em dois anos.

A inflação alta no Brasil aconteceu na contramão do movimento dos preços nas economias avançadas. Pouco ou quase nada teve a ver com a crise externa ou com os efeitos da estiagem, como tantas vezes foi alegado. Teve a ver, principalmente, com a disparada das despesas públicas e com o crescimento do consumo acima do avanço da economia.

O tal realinhamento vai provocar inflação pesada nos próximos quatro ou cinco meses. A contenção da demanda, que virá colada à relativa redução da atividade econômica, não deverá ser suficiente para segurar a alta. E tem também o impacto altista causado pelo reajuste das cotações do dólar no câmbio interno.

A diferença é a de que a política de austeridade na condução das contas públicas deixará de produzir o estrago que produzia antes – até onde a presidente Dilma deixar.

O presidente do Banco Central já avisou que a política monetária (política de juros) será acionada não para evitar a alta já contratada, mas para segurar, o quanto for possível, os reajustes em outros segmentos da economia. Ou seja, os juros continuarão a escalada anunciada nas últimas semanas de dezembro.

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Aí está a evolução dos dois principais segmentos de preços: os administrados (que só se reajustam com autorização do governo) e os livres. Os preços administrados correspondem a aproximadamente 25% da cesta do custo de vida.

Recuperação lenta
Nesta sexta-feira, o Instituto Internacional de Finanças, instituição que integra os principais bancos do mundo, advertiu que as cotações do petróleo não deverão recuperar o nível de US$ 80 por barril antes do fim de 2016. Nesta sexta, o tipo Brent fechou nos US$ 50,11 por barril.

 

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