Perversidade

Perversidade

Está correto dizer que os juros elevados no Brasil são apenas o sintoma e não o problema de fundo, que é a inflação. E a inflação chegou a esse ponto por erros graves na condução da política econômica

Celso Ming

04 Dezembro 2014 | 21h00

Então ficamos assim: juros básicos (Selic) a 11,75% ao ano, seu nível desde quarta-feira, é uma perversidade, em qualquer ângulo que sejam analisados. Entre os países com alguma densidade econômica, apenas a falida Venezuela tem juros mais altos do que o Brasil, de 15,47% ao ano. Até mesmo Rússia e Paquistão ficam abaixo. Na prática, temos taxas reais (descontada a inflação) de 5% ao ano, que ainda subirão mais, como apontou o comunicado oficial divulgado logo após a reunião do Copom.

Quando estão dispostas a encontrar culpados para as distorções da economia, nossas autoridades se alternam para dizer que os problemas estão concentrados na crise internacional. Mas não usam o mesmo critério quando a referência são os juros. E não teria mesmo cabimento, porque os países centrais trabalham hoje com juros muito próximos de zero e, em alguns deles, são até mesmo negativos.

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Está correto dizer que os juros elevados no Brasil são apenas o sintoma e não o problema de fundo, que é a inflação, que, por sua vez, é a infecção que é sintoma de uma doença mais séria. E a inflação chegou a esse ponto por erros graves na condução da política econômica.

O governo Dilma descuidou da administração das contas públicas. Apenas este ano, deixou que as despesas avançassem a 12,6% ao ano, enquanto as receitas ficaram nos 7,0%. O aumento da demanda provocou a disparada da inflação, que foi contida com mais juros. Ou seja, a política fiscal só atrapalhou.

E os juros básicos tiveram de ficar acima do normal, também porque tiveram de “compensar” os juros subsidiados e baixos demais concedidos nos financiamento do BNDES.

Muita gente não entende por que as tais expectativas podem ser, por si sós, fatores de inflação. Mas elas foram, pelo menos por dois canais. Primeiramente, porque o governo represou preços, especialmente os da gasolina, do óleo diesel, da energia elétrica e do câmbio, com o objetivo de conter a inflação. Na medida em que exige correção, esse mesmo represamento leva os remarcadores de preços a se anteciparem às correções do governo e a definir reajustes a fim de defender estoques e capital de giro.

A segunda maneira pela qual as expectativas produziram inflação foi a falta de sinceridade do Banco Central. Desde agosto de 2013, por exemplo, tentou vender peixe podre quando afirmou que a política fiscal estava correta e que não produziria inflação (apontava para a neutralidade). Agora nem o tal superávit estrutural vai ser confirmado. O governo acaba de exigir do Congresso uma lei em que fica perdoado e isento de punições por não cumprir as metas fiscais.

Nos dois últimos anos, o governo maquiou as estatísticas para esconder seus rombos. E, neste último, já não esconde que seu resultado real será um déficit primário, sabe-se lá de que proporções.
A nova equipe econômica parece disposta a trabalhar com mais sintonia. Mas ainda não apresentou um programa consistente o suficiente para assegurar o crescimento econômico, que é a única garantia de aumento firme de arrecadação e, portanto, de equilíbrio na administração das contas públicas.

CONFIRA:

VeciulosNovembro2014

No gráfico, a produção e as vendas de veículos nos últimos 12 meses.

Tombo
O momento não é animador. A produção acumulada no ano até novembro aponta queda de 15,5%. E as vendas, baixa de 8,4%. O setor vai se ajustando graças às férias coletivas.

Sem anabolizante
A partir de janeiro, as montadoras não contarão mais com o anabolizante da redução de impostos para empurrar as vendas. A nova equipe econômica precisa começar o ano sem derrubar as receitas.